245. Alceu Valença & Geraldo Azevedo: “Me Dá Um Beijo”

Me dá um beijo
Vigia um beijo
Dê cá um beijo
Se eu não lhe amo Mara,
morena, manhosa, mar
Mara maravilhosa,
morro e Mara morrerá


Na semana que passou, ganhei uma providencial carona da Julia na terça-feira. Melhor que Uber: é a minha Juber. Logo que zarpamos, seu rádio começou a tocar um xote delicioso, com uma harmonia familiar. Quando entraram os vocais, o espanto:

– Nossa, não sabia que tinha essa versão!

Tratava-se de “Me Dá Um Beijo”, faixa de abertura de um discaço dos anos 1970, a obra conjunta dos pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo. O álbum é conhecido por alguns como Quadrafônico, embora apenas carregue no título os nomes dos cantores. Isso porque a capa traz um selo enorme com a palavra “quadrafônico”, que apenas identifica o sistema (revolucionário, à época) de captação dos instrumentos em quatro canais. Por muito tempo, achei que o título Quadrafônico seria uma referência de Alceu e Geraldo ao álbum Quadrophenia do The Who… mas este foi lançado em 1973, um ano após o disco dos pernambucanos.

No som do carro, tocava a versão gravada na última reunião do Grande Encontro – e que bela surpresa encontrar essa canção, que andava meio esquecida, na reunião dos dois cantores com a paraibana Elba Ramalho. Curiosamente, o repertório de estreia do Grande Encontro (em 1996, ainda com Zé Ramalho), incorporou outra canção do mesmo álbum, a bela “Talismã”. E trazia também “Dia Branco”, de Geraldo Azevedo, mas que intitula, coincidentemente, uma outra canção de Alceu.

Mas falemos de “Me Dá Um Beijo”. A canção, composta por Alceu, na versão de Alceu Valença & Geraldo Azevedo tem arranjo de Rogério Duprat. O andamento, a levada na bateria, o coro feminino e, de certa forma, a harmonia (que ressalta um movimento descendente da nota Si♭ à nota Mi♭), me fazem lembrar do clássico de Ray Charles, “Hit The Road Jack”:

Já a letra é puro /querer/ e convite à conjunção amorosa. O enunciador dirige um pedido direto, sem rodeios, à mulher desejada, Mara: “Me dá um beijo / Dê cá um beijo”. Afinal, a moça deve ser deslumbrante, pois se equipara aos predicados associados às forças e aos elementos da natureza: “Do sol despontando raiou o dia / Com o olhar de Mara, mar azulou”.

Há a interessante brincadeira aliterante (na verdade, mais pra trava-língua) que os cantores disparam logo no início da canção: “Se eu não lhe amo Mara, / Morena, manhosa, / Mara maravilhosa, / Morro e Mara morrerá”. A escolha pelo nome Mara, como objeto de desejo da voz que canta, não poderia ser mais feliz: Mara inclui em seu nome o mar e, da mesma forma, a morena inspira o próprio amor.

Além disso, há a questão fonossemântica. A consoante [m] é nasal e bilabial – e o beijo, tão solicitado à Mara, não é mesmo a união dos lábios? Pode-se pensar se a poesia alierante, cantada pela voz da canção, não buscaria justamente exercer um efeito simpático, enquanto invocação mágica para concluir o trajeto narrativo com a esperada conjunção carnal.

Eu já havia pensado em “Me Dá Um Beijo” para o blog, mas tinha desistido da ideia, por achar que não haveria o que considerar sobre a canção. Sua simples (e inesperada) reprodução, sob a companhia da minha amiga, foi suficiente para me inspirar a escutar novamente a obra, analisá-la e concluir (isso sim, algo esperado): Geraldo e Alceu, juntos, são uma dupla arretadíssima.

alceu-valença-geraldo-azevedo
Alceu e Geraldo: sol e lua, uma dupla pernambucana imbatível.

A versão que escutei no som da Julia é a de O Grande Encontro: 20 anos (2016). O vocal de Elba faz toda a diferença:

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