244. Maria Gadú: “Altar Particular”

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
No teu penoso altar particular
Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje eu sinto que o tempo da cura tornou a tristeza normal


Conheci Maria Gadú interpretando “Vaca Profana” junto de Caetano Veloso – que, no mesmo Multishow ao vivo (2011), emocionou a colega ao tocar, sozinho ao violão, sua “Shimbalaiê”, que a cantora compôs quando tinha apenas 10 anos. Mas, apesar de ter gostado da faixa, não me animei em conhecer mais (d)a cantora paulistana

Porém, as circunstâncias simplesmente me atiraram em direção a outra canção de Gadú. Isso porque um dos caminhos que costumava percorrer ao retornar da USP para minha casa, em São Carlos, me fazia passar em frente a um muro assim pichado, à rua 28 de Setembro:

nosso-altar-particular.jpg

(Por sinal, a casa em questão fica relativamente próxima ao local onde havia outra inscrição musical numa parede, comentada aqui. Mas aquela construção foi demolida com pichação e tudo, enquanto que o registro acima é atualíssimo).

Assim, me senti obrigado a pesquisar o significado de “nosso altar particular :)” e, assim, vim a conhecer esse bonito samba de Gadú.

A canção aparece logo no início do álbum de estreia da cantora, Maria Gadú (2009). A harmonia, em tom menor, junto com seu andamento desacelerado, promove a cena ideal para a voz que canta destilar toda a sua desilusão amorosa. Dirigindo as palavras à pessoa amada, o eu lírico nada suplica: deliberadamente, pede.

A letra de “Altar Particular” é mesmo uma coleção de imperativos, sempre dirigidos precisamente a um “tu” que, diante do /querer/ do enunciador, vai se delineando enquanto autor de uma série de comportamentos equivocados, na relação amorosa que está para se desfazer.

Dois erros do interlocutor são apontados na canção: primeiramente, a excessiva idealização do parceiro, ao ponto de considerar sua imagem sagrada como os símbolos do catolicismo (repare nas palavras altar, cruz e canonizar); e, em segundo lugar, o distanciamento para com essa mesma figura, deixando-a à solitude – ou, mais precisamente, uma solidão a dois.

O enunciador, assim, se cansou de figurar, nos dois sentidos do termo: de ser uma espécie de ícone, objeto de idolatria; e de ser mero figurante, acessório, adorno. Pede, então, para que o parceiro lhe devolva seu coração, resolvendo a relação adoecida e possibilitando que cada um encontre um novo caminho: “Teu cais deve ficar em algum lugar assim / Tão longe quanto eu possa ver de mim”.

Quem já passou pela experiência, sabe: é dificílimo e (quase) sempre triste dar fim a um relacionamento, por mais libertador que o resultado possa ser. Daí a melancolia que permeia “Altar Particular” do começo ao fim – especialmente aí, ao final, quando a voz que canta de despede esperançosa, mas profundamente abatida: “Sem mais, a vida vai passando no vazio / Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor”.

Particularmente, considero que “Altar Particular” atualiza a tradição do samba paulista, que se estrutura, harmonicamente, de forma diversa em relação ao samba de outras regiões. Se o samba baiano traz uma influência modal africana mais pronunciada, e o samba carioca se deixa influenciar pelas dissonâncias bossanovistas, o samba paulista parece recorrer mais frequentemente às estruturas harmônicas da canção folclórica europeia. Mas isso são apenas conjecturas, que mereciam um estudo mais aprofundado (quem se arrisca?).

De toda forma, não é pouca coisa, e cabem todos os méritos a Gadú por ter composto sozinha uma canção que, interpretada na sua voz, soa emotiva e comovente.

maria-gadu
Maria Gadú: representando uma nova geração de competentes “cantautores” brasileiros.

Existem diversas regravações para a canção de hoje.

Em seu próprio e precoce Multishow ao vivo (2010), a cantora apresenta uma versão bonita e mais singela, sem percussão, mas preservando o arranjo de cordas da gravação original:

Já em Guelã ao vivo (2016), a canção reparece sustentada por dedilhados na guitarra, acompanhados de belos fraseados ao violoncelo, numa versão ainda mais passional:

Muito à vontade no universo do samba, o cantor Salgadinho (cuja “Recado A Minha Amada” sempre recebe muitas visitas, neste blog) devolve o balanço à canção, em Feliz por ter você (2013):

Como curiosidade, existe a versão da cantora portuguesa Cati Freitas, em Dentro (2013), com um ar jazzy:

3 comentários

  1. ”Altar Particular”,o título da canção já é bonito,que remete à ”Infinito Particular” de Marisa Monte;e a levada de ”samba-antigo” também lembra outra música da Marisa (já abordada no blog) que é ”De Mais Ninguém”.

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