3. Legião Urbana: “Há Tempos”

Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos


Algumas canções encantam por sua elaboração artística, instrumental, melódica ou harmônica. As grandes peças da MPB, de Chico a Caetano, da Bossa Nova ao Clube da Esquina, parecem atingir a pontuação máxima, simultaneamente, nos três quesitos. No entanto, há aquelas canções que, nessa equação, fazem a soma ser maior do que as partes.

Esse é o caso de “Há Tempos”, canção que abre o disco As quatro estações (1989) da Legião Urbana. Meia dúzia de acordes, compasso 4/4, uma melodia sinuosa que custa a crescer (mas que explode ao final da canção) e uma instrumentação para lá de simples. Consta no encarte do disco que a guitarra é de Dado, Bonfá toca a bateria e Renato, além dos vocais, toca violão, teclado e baixo.

Há muito o que dizer de “Há Tempos”, como há muito o que dizer do próprio As quatro estações. Na série O Livro do Disco, da Editora Cobogó, um dos volumes é dedicado a esse álbum, tendo sido escrito por Mariano Marovatto (clique aqui para saber mais). Apesar de bastante curto, o livro agrega informações que não estão presentes nos principais textos que narram a vida e a obra de Renato, como as biografias Renato Russo: o trovador solitário, de Arthur Dapieve, e Renato Russo: o filho da revolução, de Carlos Marcelo. Ali, conta-se que algum tempo após a confusão que houve no show da Legião Urbana no estádio Mané Garrincha, em Brasília, 1988, Renato Russo trancara-se em um quarto de hotel, cercado por instrumentos, para gravar as bases de um novo projeto, apontando para um caminho mais pacífico e sereno do que a Legião trilhava até então.

A banda, após o sucesso tímido do homônimo disco de estreia (1985), estourara com Dois (1986) e presenteava os fãs, em dezembro de 1987, com a antologia Que país é este – 1978/1987, reunindo clássicos de seu passado punk – conhecidos por quem acompanhou o embrião da Legião (e do Capital Inicial), o conjunto Aborto Elétrico –, mais canções do Renato Trovador Solitário (período em que se apresentava munido de uma craviola, cantando obras como “Dado Viciado”, “Eduardo E Mônica” e “Faroeste Caboclo”), além de duas novas peças, “Angra Dos Reis” e “Mais Do Mesmo”. Os shows, então, eram uma explosão de adrenalina e rebeldia punk, reunindo, num mesmo espetáculo, petardos como “Que País É Este”, “Conexão Amazônica”, “Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você)”, “Geração Coca-Cola”, “Será”, “Química” e “Baader-Meinhof Blues”. Não tardaria a que os instintos mais primitivos da plateia, canalizados pelo instrumental pesado e pelas críticas sociais das letras, irrompessem em verdadeiras manifestações de (auto)violência, ameaçando o próprio futuro da Legião Urbana – como se viu no fatídico e derradeiro show em Brasília, onde o conjunto jamais voltaria a se apresentar.

Pois bem, isolado naquele quarto de hotel, Renato gravara uma lendária fita cassete intitulada Cocaine days. Ali estariam esboçados os novos rumos temáticos e estéticos da Legião Urbana, reorientando os álbuns vindouros para outros assuntos, além da crítica social que marcou Legião UrbanaQue país é este. Em verdade, as bases dessa nova orientação já estavam anunciadas em Dois, que representara, até então, o auge da elaboração instrumental e melódica da Legião, apresentando canções como “Acrilic On Canvas”, “Andrea Doria” e “‘Índios'”, numa direção criativamente mais ousada (e mais interessante) que o punk rock que ainda se insinuava aqui e ali (por exemplo, em “Metrópole” e “Fábrica”).

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Renato, Bonfá e Dado. Após a tempestade punk de Que país é este, As quatro estações instalaria uma calmaria perene no repertório e na postura da Legião.

A gestação de As quatro estações foi lenta. Mesmo com as bases de Cocaine days, as canções (principalmente, as letras) demorariam a surgir. Passara-se 1988 e nada. A gravadora EMI-Odeon era complacente com o tempo exigido pela banda para produzir novo material, mas aumentava, cada vez mais, a sensação de que essa paciência se esgotaria a qualquer momento. Para além de tudo isso, muitas emoções estavam à flor da pele: Renato Rocha, o baixista nos discos anteriores, acabara de ser expulso (ou auto-ejetado do conjunto, na visão de Dado), sobrecarregando os membros restantes na tarefa composicional; a paternidade afetara, agora, a todos, inclusive Renato; e o vocalista-letrista não demoraria a se descobrir soropositivo.

Com muito custo foram surgindo as primeiras bases instrumentais do disco. A internet é fantástica e, hoje, é possível conhecer um pouco desses momentos históricos, graças à generosidade de quem compartilha o material raro que consegue obter (não sei e não quero saber como!); assim, o canal Arquivo Legião disponibilizou no YouTube uma versão demo de “Há Tempos”, com o instrumental praticamente concluído, aguardando apenas a letra de Renato:

A verdade é que apenas em 29 de outubro de 1989 a Legião disponibilizaria aos fãs o resultado da longa jornada iniciada após o show no Mané Garrincha, e concluída um ano depois. Remeto os leitores para os livros que mencionei no post, principalmente o volume da coleção O Livro do Disco, caso queiram saber mais detalhes sobre a via a crucis que foi a elaboração/gravação de As quatro estações. Agora, falemos de “Há Tempos”.


A canção é iniciada com uma virada de bateria, que já de início expõe a sonoridade sessentista do disco. Os timbres soam propositadamente antigos; não são poucas as canções que, à Beatles da fase iê-iê-iê, são tocadas inteiramente com o chimbal aberto na bateria de Bonfá (é o caso de “1965 (Duas Tribos)”, “Meninos E Meninas”, “Sete Cidades” e a própria “Há Tempos”). Ainda na introdução, apresenta-se um tema de teclados, que surgiria em outros dois momentos (nos versos “Já estamos acostumados / A não termos mais nem isso” e na estrofe final), acompanhado por um delicado dedilhado de guitarra, que perdura por toda a canção.

De cara, a pedrada: “Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade”. O ouvinte mais apressado poderia pensar que, se a ideia era afastar o niilismo punk que assombrara a Legião até então, Renato falhara miseravelmente. Mas algo está diferente. A letra não é mais tão direta quanto em composições anteriores, e chama a atenção sua elaboração em termos léxicos e gramaticais. Como ocorreria em outros momentos de As quatro estações, o coloquial “você” cede lugar ao rebuscado “tu”, o que é um álibi e tanto para Renato escrever alguns dos versos mais pungentes (e mais dolorosamente lindos) de sua obra: “Disseste que se tua voz tivesse força igual / À imensa dor que sentes / Teu grito acordaria / Não só a tua casa / Mas a vizinhança inteira.”

É nesse tom que “Há Tempos” fala do pathos da vida urbana na pós-modernidade: a virtude que perdemos, o fim das utopias (“Há tempos tive um sonho / Não me lembro, não me lembro”), a descrença nas instituições (ao cantar “Já estamos acostumados / A não termos mais nem isso”, Renato exibe o arcano da Justiça, do Tarot, durante o clipe da canção – que jajá comentarei), a perda de referências éticas (“E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade”), a AIDS (“E há tempos são os jovens que adoecem”), em resumo, o desencanto (“Há tempos o encanto está ausente”). Essa lista de doenças do contemporâneo seria, mais tarde, atualizada em outras quatro oportunidades futuras, explorando diferentes gêneros cancionais: no disco O descobrimento do Brasil (1993), no rap “Perfeição” e na quase-canção-infantil “Os Anjos”; e no derradeiro A tempestade ou O livro dos dias (1996), na work-song “Música De Trabalho” (que reatualiza, de quebra, “Fábrica”, mas também traz um quê de “A Hard Day’s Night”) e na punk “Natália”.

Como disse, apenas para o ouvinte menos atento é que a pretendida reorientação temática, discursiva e instrumental, proposta por As quatro estações, teria falhado, ou se anunciado apenas na superfície. E para mostrar que sim – Renato impusera um caminho absolutamente original para a Legião, representando uma guinada em relação ao percurso anterior –, preciso tratar da harmonia de “Há Tempos”.

A canção explora o campo harmônico de Ré Maior, alternando o próprio acorde de Ré Maior com Lá Menor, com algumas intervenções de Sol Maior na retomada do tema da introdução. No entanto, existem dois elementos que contribuem para desfazer a aparente monotonia harmônica da obra. Por duas ocasiões, de forma a sublinhar o texto da letra, ocorre a insurreição da sequência Sol Maior-Mi Menor: isso acontece nos versos “…herdeiros são / Agora da virtude que perdemos” e “Teu grito acordaria / Não só a tua casa”. Interessantemente, essas quebras de continuidade, no mesmo campo harmônico, absolutamente não coincidem com a demarcação da letra em estrofes, e mesmo em versos.

Chama mais a atenção, para mim, a presença de partes inteiras em que a harmonia cede à modalização não mais em Ré Maior, mas em Dó Maior (revezando os acordes de Fá Maior e o próprio Dó Maior), o que acontece nas seguintes ocasiões: “Tua tristeza é tão exata / E o hoje o dia é tão bonito” e “…têm ao certo / A medida da maldade / E há tempos são os jovens que adoecem / E há tempos o encanto está ausente / E há ferrugem nos sorrisos / E só o acaso estende os braços / A quem procura abrigo e proteção.” Ao que parece, o modo em Dó Maior serve para distinguir os elementos reflexivos e descritivos da canção: aos primeiros, o campo harmônico original e, aos segundos, as inflexões harmônicas.

A grande sacada, porém, está reservada para a última e apoteótica estrofe que refuta, definitiva e irreversivelmente, a hipótese da continuidade, senão estética, ao menos temática, entre a Legião pré e pós-As quatro estações. Encerrando a última modalização em Dó Maior, aparece, surpreendentemente, sobre a palavra “proteção” (cujas três sílabas são cantadas quase como melismas, com Renato prolongando empostadamente as vogais), o acorde de Lá Maior, estranho aos campos harmônicos anteriormente explorados. Trata-se de uma quebra de continuidade total, perfeita, tanto em termos harmônicos, quanto melódicos, e mesmo líricos: a enumeração de elementos disfóricos, matéria-prima de toda a letra até aqui, cede lugar a uma solução inesperada, apontando para uma outra ética individual, baseada em valores que estavam submersos em meio ao conjunto de mazelas que até então foram apresentadas. Essa ética é apresentada como uma receita, o que talvez tenha reforçado o messianismo que crescentemente seria atribuído à Legião Urbana: “Meu amor, disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade / É ter coragem”. São novos valores para todos os discípulos legionários.

Ainda em termos líricos, o final da canção é ainda mais surpreendente, e enigmático: “E ela disse: / – Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa”. Esses versos são, até hoje, objeto de discussão por parte dos fãs, que recorrem da psicanálise à mitologia para o interpretarem. [Abaixo, na seção de comentários, e mais de um ano após a publicação deste post, faço algumas reflexões sobre possíveis origens e significados desses versos].

Destaco ainda, quanto à letra, a habilidade de Renato em usar um mesmo verbo com diferentes sentidos, nos versos “ tempos o encanto está ausente / E ferrugem nos sorriso”, além da impressionante aliteração em “E só o acaso estende os braços / A quem procura abrigo e proteção”.

Não se poderia esperar menos de quem consegue emplacar um hit (“Há Tempos” estourou em todo o Brasil, e está presente em todas as coletâneas de sucessos da Legião Urbana) sem refrão e, na verdade, sem repetir nenhum verso.


Para além de seus elementos composicionais, “Há Tempos” reúne referências que são interessantes de explorar.

Ao final do encarte de As quatro estações, em um texto não assinado, Renato escreve:

Existem marés e existe a lua. O segundo verso de “Há Tempos” é de um texto achado numa igreja em 1.600 e alguma coisa na Europa e veio por carta (Oi Luzia!). O legal é que quando minha prima voltou do encontro jovem lá estava a mesma frase, no mesmo texto, desta vez atribuído a um autor hindú desconhecido, na apostila (junto com a foto dos jovens do encontro pra você guardar de lembrança etc.)

Na verdade, mais tarde se descobriria que o texto nem fora “achado numa igreja”, nem era “atribuído a um autor hindu”. A revista Prosa, verso e arte desmitifica a questão, mostrando que o verso pertence ao poema “Desiderata”, de Max Ehrmann (acesse a matéria completa aqui):

O poema “Desiderata” foi escrito em 1927 pelo poeta americano Max Ehrmann (1872-1945). […] Em alguns livros de referência, “Desiderata” é ainda amiúde considerado como tendo sido “achado” na velha St. Paul’s Church, em Baltimore, e que data de 1692. Entretanto, ele foi realmente escrito por Max Ehrmann, (1872-1945) que registrou o copyright em 1927; o copyright foi renovado em 1954 por Bertha K. Ehrmann.

O pároco da Igreja de Saint Paul em Baltimore, o Reverendo Frederick Kates, mimeografou o poema para os seus fiéis e posteriormente alguém o reproduziu e não incluiu o nome do autor, colocando a observação que o poema tinha sido “encontrado na Igreja de Saint Paul, datado de 1692”. Na verdade, o ano de 1692 é o de fundação da Igreja de Saint Paul.

Já os versos finais, com a receita ética de que “Disciplina é liberdade”, aludem ao lema do doublethink (“duplipensar”) que George Orwell estabelece para o futuro (presente?) distópico do romance 1984: “GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORÂNCIA É FORÇA”. É interessante comparar, lado a lado, a dialética distorcida do doublethink com o novo lema aposto por Renato:

Guerra é paz
Disciplina é liberdade
Liberdade é escravidão
Compaixão é fortaleza
Ignorância é força
Ter bondade é ter coragem

O lema “Disciplina é liberdade” guarda ainda outras surpresas. O videoclipe de “Há Tempos”, que mescla cenas da banda ensaiando com closes de Renato, segurando um violão à frente de parte de sua biblioteca pessoal, mostra algumas das obras do acervo do vocalista. Entre os vários clássicos ali reunidos (e novamente sugiro uma passada de olhos no volume de O Livro do Disco, em que Mariano Marovatto compila todas as obras que identifica nas imagens do clipe), está o conjunto de quatro tomos do famoso e indispensável Paidéia, do alemão Werner Jaeger (Paideia – a formação do homem grego. Tradução de Arthur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995. 1413 p.). A obra traça as origens da educação na Grécia Antiga, mediante uma análise do conceito de paideia (παιδεία) e suas relações com os ideais de virtude (aretê – ἀρετή), conhecimento (seja em sua vertente opinativa, doxa – δόξα, seja em sua vertente elaborada, episteme – ἐπιστήμη) e apreço pelo saber ou pela cultura (filosofia – Φιλοσοφία). O terceiro tomo da obra trata das contribuições de Platão para a elaboração do conceito de paideia, e traz uma análise pormenorizada, em três capítulos, de sua obra máxima, República. É interessante que, nesse diálogo socrático que investiga qual deva ser a verdadeira aretê de um governante da polis, emerja a disciplina justamente enquanto autodisciplina, isto é, controle das disposições instintivas do indivíduo, mediante o qual (e apenas mediante o qual) ele poderá compreender e desfrutar da verdadeira liberdade. E pela organização do Estado para a consecução de uma tarefa verdadeiramente educativa, a juventude poderia imitar (mimesis) o exemplo do governante, o rei-filósofo, domando a “besta selvagem e multicéfala” que existe internamente em cada indivíduo. Reproduzindo as palavras de Jaeger,

Eis o Estado que a paidéia platônica se propõe como meta. A juventude não deve furtar-se à sua disciplina e buscar a liberdade (p 973).

É o próprio Renato quem esclarece esse sentido dos versos, em uma de suas entrevistas clássicas (concedida à revista Bizz em junho de 1990 – acesse-a aqui):

O que você diria a uma pessoa que acha o verso “Disciplina é liberdade” fascista?
Claro que não é! Ali eu estou falando de autodisciplina. Se você pensar numa relação sujeito-objeto, é fascista, mas numa relação sujeito-sujeito, não é. Não é: “Eu vou disciplinar você”. A natureza é disciplinada. Eu preciso de muita disciplina! Fica tão bonito escrito “Disciplina é liberdade”. E é uma inversão do doublethink do 1984; “Liberdade é escravidão”, “Ignorância é força”.

Se você tiver um conceito legal de liberdade, imediatamente surge uma ideia positiva. Mas eu acho bacana que as pessoas se preocupem.


“Há Tempos” foi interpretada e reinterpretada várias vezes. Na própria discografia da Legião, além da versão original registrada em As quatro estações, o ouvinte poderá desfrutar de mais três versões:

  • Uma alucinante versão ao vivo, registrada no antológico show no estádio do Palmeiras em 1990. Lançada primeiro na coletânea Música p/ acampamentos (1992), reapareceria mais tarde numa compilação quase integral dos números daquele show, em versão remasterizada, no disco As quatro estações – ao vivo (2004);
  • No registro do show realizado no Metropolitan em 1994, na turnê de O descobrimento do Brasil, que não supera o registro ao vivo anterior (o vocal de Renato está desgastado);
  • E numa singela versão acústica do disco Acústico MTV (1999), improvisada ao fim daquela apresentação no Hipódromo da Gávea em 1992. Apesar da simplicidade (são apenas Renato cantando, Dado ao violão e Bonfá no pandeiro meia-lua), os vocais estão embasbacantes nessa apresentação única.

Além dessas versões, destaco os seguintes intérpretes que releram a canção:

  • Célia Porto, em um disco-tributo à Legião (Célia Porto canta Legião Urbana) gravado em 1996 e remasterizado em 2009, apresenta uma versão com ousadas alterações harmônicas e melódicas, que nada comprometem a canção, mas a tornam mais curiosa;
  • Jerry Adriani, também em um disco-tributo (Forza sempre, 1999), com adaptações das canções para o idioma italiano, apresenta uma releitura belíssima e bastante reverente ao arranjo original. Intitulada agora “Una Volta”, a faixa substitui os strings do teclado original de Renato por uma competente orquestra. As faixas são conduzidas pela última formação da banda de apoio da Legião, Fred Nascimento (guitarras e violões), Carlos Trilha (teclados e programações) e Gian Fabra (baixo e adaptação das letras para o italiano). A surpresa fica por conta da abertura do número: antes do início propriamente dito de “Há Tempos”, sob um som de chuva, Fred toca a vinheta instrumental “Central Do Brasil”, do disco Dois da Legião;
  • Também em disco-tributo, temos a versão de Leila Pinheiro. Aqui, devo dizer que a regravação é decepcionante, sobretudo por conta do ritmo arrastado. Aliás, o disco todo (Meu segredo mais sincero, 2010), em que pesem as boas intenções da intérprete e sua proximidade afetiva com o repertório da Legião (de quem já havia gravado “Tempo Perdido” e “Vento No Litoral”, esta sim numa versão maravilhosa), não atinge as expectativas do ouvinte, seja pelas óbvias escolhas do repertório (que coincide, em grande medida, com aquele do disco da Célia Porto), seja pelos equívocos nos arranjos;
  • Finalmente, há uma proposta interessante de Daniela Mercury, no recente O axé, a voz e o violão (2017). O registro em voz e violão, se não agrada à primeira audição, ao menos apresenta uma competente intérprete, distanciada do universo temático e estilístico da Legião, propondo uma releitura arriscada desta canção tão regravada.

Fiquem com minha favorita de todas essas, a versão do saudoso Jerry Adriani:

5 comentários

  1. A dona Carminha diz no vídeo do Minhabsb (veja no YouTube) que o verso “lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa” se refere ao pai do Renato. A “água é muito limpa” é porque ele era muito honesto.

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    1. Oi, Karla.

      O YouTube sempre me recomenda esse vídeo, e sempre esqueço de assistir a ele. Agora, fiquei com vontade!
      Quanto aos versos de “Há Tempos”, se é a Dona Carminha quem diz, quem somos nós para contrariar, não é mesmo? E Renato de fato costumava abrir a inspiração de suas letras para as pessoas mais próximas, e mesmo para os fãs (por exemplo, no Arquivo Legião tem o áudio de uma entrevista em que ele explica o “Estamos indo de volta pra casa” de “Por Enquanto”).
      Por outro lado, há uns dois meses, flagrei-me lendo o I-Ching, na edição da Ed. Pensamento, com prefácio de C. G. Jung. Nas suas biografias, fica claro que Renato gostava do oráculo chinês. Bom, veja o que aparece na p. 25, justamente no prefácio jungiano – num momento em que Jung descreve uma consulta que está fazendo, ao próprio I-Ching, a respeito de sua participação nesse projeto editorial de traduzir o antigo livro chinês para os idiomas ocidentais:

      “Em nosso hexagrama temos um seis na terceira posição. Essa linha yin de crescente tensão transforma-se em uma linha yang e assim gera um novo hexagrama, mostrando uma nova possibilidade ou tendência. Temos agora o hexagrama 48 – Ching, O POÇO. O fosso cheio de água já não significa mais perigo e sim algo benéfico, um poço.

      Assim o homem superior incentiva o povo em seu trabalho, exortando as pessoas a se ajudarem mutuamente.

      A imagem de pessoas ajudando-se umas as outras outras pareceria referir à reconstrução do poço, pois este está quebrado e cheio de lama. Nem mesmo os animais bebem nele. Há peixes vivendo nele e pode-se apanhá-los, mas o poço não é utilizado para beber, isto é, para as necessidades humanas. Essa descrição lembra o Ting – O CALDEIRÃO – de cabeça para baixo e fora de uso, que precisa receber uma nova alça. Além disso, esse poço, como o Ting, está limpo, mas ninguém bebe dele.

      Este é o pesar de meu coração, pois se poderia usufruir dele.”

      No encarte de As quatro estações, duas obras orientais são citadas como inspiração para as letras do disco: A doutrina de Buda e o Tao Te Ching. Não seria surpreendente que o I Ching integrasse a mesma lista, e que tivesse inspirado Renato a compor esses versos enigmáticos de “Há Tempos”. E, coincidência ou não, como digo no post, o videoclipe tem menções a outro jogo oracular, o Tarot, que Renato também dominava, e chegou a mencionar em outras canções (“L’age D’or” e “La Maison Dieu”).
      Enfim, divagações.
      No mais, grato pela visita e pelo comentário. Tem vários outros posts sobre composições de Renato; confira na aba Sumário.

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