49. Os Tincoãs: “Cordeiro De Nanã”

Fui chamado de cordeiro, mas não sou cordeiro, não.
Preferi ficar calado que falar e levar não.
O meu silêncio é uma singela oração.
Minha santa de fé.
Meu cantar.
(Meu cantar)
Vibram as forças que sustenta o meu viver.
(Meu viver)
Meu cantar.
(Meu cantar)
É um apelo que eu faço a Nãnaê.


O Brasil tem uma tradição de ótimos conjuntos vocais. Além dos mais renomados MPB-4 e Quarteto em Cy, há o nem sempre lembrado Boca Livre, sem contar com os Golden Boys, ainda na época da Jovem Guarda.

Ora, a Bahia também está representada nessa lista, com Os Tincoãs, grupo de existência relativamente efêmera, redescoberto nos últimos anos, e atualmente gozando de uma aura cult.

Existem aos menos dois clássicos dos Tincoãs, que vêm sendo bem tocados por aí: “Deixa A Gira Girar”, sucesso nas pistas de dança com uma incrível versão do conjunto (de Ana) Mametto; e “Cordeiro De Nanã”, que foi gravada já por muita gente.

Vamos falar dessa última canção.


“Cordeiro De Nanã” foi lançada inicialmente como single, vindo a integrar, no mesmo ano (1977), o álbum Os Tincoãs. Como as demais canções gravadas pelo conjunto, esta mantém o pé fincado nas raízes africanas de seus componentes – que, em 1977, já em sua quarta formação, eram Badu, Dadinho e Mateus Aleluia. Os dois últimos foram os compositores da faixa.

A harmonia é bem curiosa: começa abrangendo, em parte, a tonalidade de Sol Menor, mas o refrão se aventura por um Ré Maior que, em vez simplesmente repousar em G, o acorde da dominante, o altera para Gm antes de se repetir – recuperando, portanto, uma memória da harmonia anterior.

A letra reflete essa movimentação entre as tonalidades. Na harmonia com acordes menores, impera o tom de lamento, de rememoração de experiências sofridas, as quais remontam aos tempos da escravidão, com as “duras dores da humilhação” e a humanidade negada. Só resta à voz da canção se resignar silenciosamente – um silêncio/oração a Nanã. Nesse canto silencioso, dirigido à orixá da nação jeje, irrompem as forças que sustentam a resistência, o viver desse sujeito tão maltratado. Daí a conversão do lamento, da súplica, em celebração, em louvor à orixá de cabeça: “Sou de Nanã, euá, euá, euá, ê”. Um refrão tão eufórico só podia ser atravessado por uma harmonia maior, mas com uma ressalva: nem tudo é festa quando o assunto é Nanã, e talvez venha daí o pequeno jogo com o acorde de G que cede ao Gm, sua contraparte lunar. Pois como afirma João Clodomiro do Carmo (O que é candomblé. São Paulo: Brasiliense, 2006),

Nanã é a velha mãe de Obaluaiê, que repudiou o menino quando ele era apenas um adolescente, cheio de doenças venéreas. Sua dança no terreiro é pesada e desgraciosa. Como Obaluaiê, ela também está ligada à morte e aos defuntos, bem como à matéria primordial da Terra, antes de existirem os seres vivos (p. 82).

Ainda com relação ao refrão, fica a dúvida se “euá” é simplesmente uma onomatopeia jocosa, ou se é uma referência a outra orixá, menos conhecida e celebrada que Nanã, mas ainda assim importante para os rituais do candomblé: Euá. Ainda segundo Carmo, “Euá é a mulher sofrida e pobre, que só consegue sustentar sua prole com trabalho penoso, ultrapassando muitas dificuldades”. Em alguns terreiros, costuma ser considerada como um tipo de Oxum – informação que me foi passada por uma filha de Euá que passou por minha vida há muitos anos.

os-tincoas.jpg
Os Tincoãs em 1977: belos arranjos vocais para o batuque bahiano de celebração aos orixás.

No célebre Brasil (1981), gravado com Caetano Veloso e Gilberto Gil, João Gilberto cantou o refrão de “Cordeiro De Nanã” como uma bela vinheta:

Mais tarde, muita gente regravaria esse sucesso dos Tincoãs. Uma das versões mais conhecidas é a registrada por Margareth Menezes, em seu Brasileira ao vivo: uma homenagem ao samba-reggae (2006), num pot-pourri com “Deixa A Gira Girar” e “Atabaque Chora”, com a participação de Mateus Aleluia. Um belo tributo aos Tincoãs! Veja:

Trabalhando com sons mais diversificados, a cantora pernambucana Rosa Ferraz registrou a canção em seu EP Normal (2016). “Cordeiro De Nanã” aparece, aí, como se fosse tocada por uma banda indie. E se eu falar que ficou muito bom? Confira:

De volta ao universo dos Tincoãs, existe a versão do cantor Xangai, novamente com a participação de Aleluia, em Cantingueiros (2017). Preste atenção ao diálogo entre os dois cantores no início da faixa, com Mateus explicando quem é Nanã. Outro atrativo da versão é ouvir o remanescente dos Tincoãs recitar, com sua bela voz grave, os versos da canção:

Mas a versão definitiva, para mim, é a que Thalma de Freitas registrou no programa Compacto Petrobrás em 2010. Trata-se de um registro familiar: temos Thalma cantando; seu pai, Laércio de Freitas, ao piano; Mateus Aleluia, novamente, cantando e tocando violão; e sua filha, Fabiana Aleluia, nos vocais. Emocionante! Thalma – que já havia registrado a canção em seu álbum homônimo de 2004, mas cantando apenas o refrão, à João Gilberto – é magnífica, inexplicável, belíssima… emocione-se:

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