223. Mário Gil: “Outro Quilombo”

Ponta de pedra, costeira, perau, quebra mar
Mangue, colônia pesqueira, pontal do pilar
Barro, sapê e aroeira é a casa de lá
Bule de flandres, esteira, moringa e alguidar
Beira de mar


Uma canção que me encantou à primeira audição – num show de Renato Braz – foi “Outro Quilombo”, que inclusive batiza um belíssimo álbum de 2002 do compositor paulista.

Depois, fui saber que a obra fora lançada em Contos do mar (1998), do mineiro Mário Gil. Aliás, ele e Renato são parceiros de longa data, e o show a que assisti, em boa parte, foi um espetáculo a dois, com Mário comparecendo ao violão e em alguns vocais.

Já a canção, especificamente, tem uma magnífica letra de Paulo César Pinheiro. Não há o que dissecar sobre a obra, que é aberta por um som de congas, sendo conduzida ao sempre competente violão de Mário. A melodia busca, inicialmente, se conter nas regiões mais graves da tessitura, explodindo no refrão: “Cada negro olhar / Sangue de África / Centro de aldeia, bandeira, nação Zanzibar / Da mesma veia guerreira do Povo Palmar / Tudo palmeira de beira de mar”. Destacam-se, então, as assonâncias, já presentes desde os primeiros versos.

Nesse refrão impressionante, Mário (que é bom cantor, mas não um vocalista nato) conta com o auxílio da maravilhosa Monica Salmaso, com seu timbre límpido que, mesmo nos agudos, mantém um tom aconchegante e plácido – estável como a metáfora da “beira de mar” mencionada na letra, que recebe pacientemente o choque de infinitas ondas e permanece firme e resistente – ou, mais precisamente, da “palmeira de beira de mar”, que verga sob o vento marítmo, mas não quebra.

Canção perfeita – como toda parceria de Mário com Paulinho, incluindo a “Anabela” que já trouxemos ao blog.

mario-gil.jpg
Mário Gil, com o amigo Renato Braz: competência musical e bom gosto de uma geração marcante da MPB.

A versão de Outro quilombo abre com um som de berimbau, que permanece participando do restante da canção – ao contrário das congas no registro original, a propósito, tocadas pelo próprio Renato. Na verdade, as duas gravações são parecidíssimas, trazendo inclusive os mesmos músicos: Mário Gil ao violão e o experiente Sizão Machado no contrabaixo. E fico imaginando como a faixa não ficaria linda caso Monica Salamazo também participasse dessa versão. Aprecie:

A curiosidade fica por conta da versão cantada pelos ingleses do Raja & Friends, que divulgaram no YouTube, no 1º dia deste mês, o conteúdo do álbum Odoyá. Embora eu já estivesse há alguns meses planejando este post (que, no fim das contas, nem exigia tanta antecipação), foi esse lançamento que me motivou a abordar “Outro Quilombo” justamente agora. Coincidentemente, Odoyá, com sua homenagem aos afro-sambas de diversos compositores brasileiros, abre com uma faixa já tematizada aqui: “Cordeiro De Nanã” (seguindo de “Canto Pra Yemanjá”, dos mesmos Tincoãs). Vale a audição pela riqueza dos arranjos e pelo esforço de artistas entrangeiros em prestar um tributo à cultura legitimamente tupiniquim – coisa para a qual muito brazuca não dá a mínima. Além disso, a audição de “Outro Quilombo” torna evidente como é difícil, para não brasileiros, reproduzir células rítmicas muito peculiares de nossas manifestações, como a capoeira que dita o andamento da canção. Enfim, curta a homenagem:

3 comentários

  1. Adorei a música,Monica Salmaso,Renato Braz e companhia são a prova viva de que a MPB de qualidade ainda pulsa.

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    1. Acredito que, finalizada a tarefa deste blog no dia 31 de dezembro – e se houver Brasil/mundo até lá – teremos um quadro eloquente sobre o quão rica e pulsante é nossa canção popular. Isso fica muito claro no blog do Davino. Dá gosto de ver.

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