53. Itamar Assumpção: “Nega Música”

Quando você menos espera, ela chega
Fazendo do teu coração
O que bem ela fizer
Nem venha querendo você se espantar
Não, não, não, não, não
Quando você menos espera ela toca
O fundo do teu coração
Assim como uma mulher
Nem venha querendo você se espantar
Não, não, não, não, não


Quando criei o 365 Canções Brasileiras, pensei em organizar os posts por gêneros, atribuindo diferentes tags para identificá-los. Assim, o ouvinte de samba poderia visitar apenas as postagens referentes a seu estilo predileto, e assim por diante com todos os demais gêneros – rock, reggae, MPB, música caipira, hip-hop, etc.

Declinei da ideia por duas razões: primeiro, porque cada estilo não é monolítico, havendo subdivisões que só tornariam mais difícil meu trabalho categorizador. Afinal, como não separar o BRock do rock psicodélico, e este do punk, e este do metal… ad infinitum?

Já a segunda razão tem a ver com este post: em que gênero classificar gente como Itamar Assumpção? Precisaria criar a irritante, mas indispensável, categoria “outros” ou “diversos”. E se há os inclassificáveis, para quê classificar, então?


Hoje vamos falar de uma bela canção de Itamar, esse cantor, compositor, instrumentista e, em uma palavra, gênio da canção popular brasileira. Um personagem que também nos deixou cedo demais, diga-se de passagem.

“Nega Música” consta em seu disco de estreia, o igualmente genial Beleléu, leléu, eu (1980), gravado com a incrível Banda Isca de Polícia. Já gostava da faixa quando escutava o álbum, e fiquei mais impressionado ainda ao ouvi-la numa apresentação do conjunto vocal feminino Bolerinho, no Sesc Santo André em 2016, em show de homenagem à Vanguarda Paulistana. O arranjo vocal das meninas me chamou tanto a atenção que fiquei por uma semana escutando diariamente a versão de Itamar.

Trata-se de uma canção curta, harmônica e liricamente simples. A letra está integralmente exposta na epígrafe do post, e fala sobre “ela”, que chega e faz de nós o que bem entende. Na segunda estrofe, fica claro que “ela” não é uma mulher – já que é comparada a uma – e chega para tocar “O fundo do teu coração”. Ligando os pontos, fica claro que essa presença que chega de repente, e que nos toca, é simplesmente uma… música.

Na verdade, o título da canção já entrega essa interpretação. Mas acho curiosa sua ambiguidade: “nega” é adjetivo, substantivo ou verbo? Parece evidente que não temos, aí, um substantivo composto, nega-música. Taxar a música de nega – “música nega” – também não tem a ver com o estilo sutil do compositor paulistano. Nega, do verbo negar, também não é uma saída, pois só faria sentido se “Nega Música” fosse uma “anti-música” – como, aliás, o são muitas das “canções” tocadas pelo pessoal da Vanguarda na Lira Paulistana.

Fico, então, com o nega substantivo adjetivado por música (relativo às musas). Que nega é essa que se aproxima, “Fazendo do teu coração / O que bem ela fizer”? É um tipo especial de nega. A nega música. Não é a nossa nega, nossa companheira. É uma outra nega, com poderes semelhantes, é verdade, mas que chega quando menos se espera.

Assim, a canção pode estar se referindo tanto ao papel do ouvinte, que é surpreendido por uma canção tocante no rádio, quanto ao ofício do compositor, que se vê surpreendido quando a nega música (essa presença inspiradora e repentina) se aproxima e o impele a compor.

itamar-assumpcao.jpg
Itamar Assumpção, o nego (mal)dito, genial, inclassificável, cantador de musas/músicas inspiradoras.

Ok, superamos a parte lírica, e não vamos considerar a harmonia um problema (por possuir apenas quatro acordes, restritos ao campo de Ré Maior e levemente tingidos com inversões, sextas e nonas). A principal característica de “Nega Música” está determinada pelo arranjo melódico, que cria uma polifonia em que três vozes cantam a mesma canção, cada uma atrasada dois compassos em relação à anterior. O trabalho de Bastos (Processos de composição e expressão na obra de Itamar Assumpção. 2012. 234 f. Dissertação (Mestrado em Processos de Criação Musical) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012) fala sobre esse aspecto em uma nota de rodapé, após o seguinte fragmento, que trata justamente da relação masculino-feminino na obra de Itamar:

A canção Quem canta seus males espanta é interpretada pela cantora Ná Ozzetti. A letra, em primeira pessoa, expõe um pouco do que seria o ofício de cantar, e da função que há no canto. Nesse sentido, a cantora Ná toma para si palavras que são do poeta Itamar, e que lhe atribuem sentimentos e sensações. Mas sendo uma voz feminina, é simbolicamente o feminino quem passa a dizer. Várias imagens do poema se remetem às questões explicitadas por Itamar quanto à função do trabalho artístico: cantar é similar a um trabalho espiritual, já que se entra “em transe” ou; cantar modifica o estado das coisas, já que a “desgraça” vira “encanto”; a voz “transmuta”, multiplica, pois já a transformação, o transbordamento de “uma” em “outras”; cantar é  um trabalho solitário, é uma “sina”, tal qual a sereia, que não é daqui nem de lá. É pelos palcos que se vive. A voz de Itamar aparece na gravação para concordar dizendo: “eu também”. Por isso o feminino e o masculino podem ser vistos na obra de Itamar também de maneira profusa e mediada em que há o intercâmbio de papéis (p. 108).

E a nota de rodapé, referente ao término do parágrafo, mostra como tais processos, aplicados em “Quem Canta Seus Males Espanta”, também são válidos para “Nega Música” – que, como vimos, traz um sujeito, ou melhor, um objeto masculino precisando lidar com uma nega que chega e lhe arrebata. Uma curiosa inversão dos estereótipos que marcam a associação masculino-ativo/feminino-passivo. Observe as palavras da autora na nota em questão:

Na canção Nega Música, por exemplo, além de haver a mistura de duas melodias, numa espécie de cânone em que Itamar e Neusa Pinheiro cantam, há no final a troca de região (de altura), aonde a voz feminina vai para o grave e a voz masculina canta no aguda. “Ela toca o fundo do teu coração, assim como uma mulher”, diz a letra.

Pensei em dissecar graficamente a polifonia de “Nega Música” e saíram as figuras abaixo. Em primeiro lugar, observe a legenda, em que atribuí ícones aos conjuntos de versos, delimitados pela divisão em dois compassos, assim como uma diferenciação em cores para as três vozes que são ouvidas (dois canais para Itamar, um canal para Neusa Pinheiro):

itamar-legenda.jpg

A figura resultante, que discrimina o aparecimento das vozes em uma dimensão vertical (de cima para baixo, conforme prossegue a canção) é assim representada:

itamar-nega-musica.jpg

Essa imagem acaba explicitando a forma como os dois cantos de Itamar se associam, pois estão em fase. Assim, temos as combinações de versos:

  • “Fazendo do teu coração o que bem ela fizer / Quando você menos espera, ela chega”
  • “Nem venha querendo você se espantar, não, não, não, não, não / Fazendo do teu coração o que bem ela fizer”
  • “Quando você menos espera, ela toca / Nem venha querendo você se espantar, não, não, não, não, não”
  • “O fundo do teu coração, assim como uma mulher / Quando você menos espera, ela toca”
  • “Nem venha querendo você se espantar, não, não, não, não, não / O fundo do teu coração, assim como uma mulher”

Entre as interpretações de “Nega Música”, temos uma versão pesada e quase raivosa de Alice Caymmi. Executada no programa Os ímpares em 2018, a canção ressurge cheia de atabaques, que remetem ao passado de Itamar como ogã no terreiro de sua família:

Também para um programa musical (Cultura livre) e em 2018, há a releitura de Liniker, que não compreendi muito bem, por conta das alterações na letra e da interpretação exagerada, muito abaixo do potencial da intérprete:

Para mim, a mais interessante de todas, até por ser a que mais preserva elementos do arranjo original (menos a polifonia, ausente em todas as versões), é a performance de Zélia Duncan para o projeto Música de bolso em 2007. Aqui, temos a cantora brasiliense cantando sozinha ao violão, numa esquina de São Paulo:

5 comentários

  1. Parabéns pela análise.
    Itamar fez uma das melhores músicas sobre a Música (Musa)…
    A comparação à Mulher é um ponto alto (de muitos).

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    1. Concordo plenamente!
      É interessante ouvir, sobre o que é músico (ou seja, relativo às musas) outro grande compositor, talvez ainda mais vanguardista do que Itamar: Tom Zé. É dele a canção “Músico”, gravada pelos Paralamas do Sucesso, cuja versão por Lucas Santtana também foi tematizada aqui no blog. Fica o convite para você escutá-la, e conferir o post.
      Grato pelo comentário e pela visita.

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