58. Renato Russo: “Celeste”

Vê que meu sorriso
É verdadeiro
Meu coração está desperto
É sereno o nosso amor
E santo este lugar
Dos tempos de tristeza
Tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar


A tempestade ou o livro dos dias (1996), o último álbum da Legião Urbana antes da morte de Renato Russo, foi um presente que ganhei aos 12 anos. Era um disco longo, com mais de uma hora de duração, e denso. Anos depois, ao ler a biografia Renato Russo: o trovador solitário, de Arthur Dapieve, entendi o porquê de A tempestade ser tão difícil: o cantor e compositor da banda de Brasília, consciente de estava vivendo seus momentos derradeiros conosco, resolveu fazer de seus últimos anos de vida os mais produtivos, como se tivesse urgência em transmitir sua mensagem.

Desse álbum melancolicamente azul, escolhi algumas faixas favoritas, e praticamente não escutava as demais – coisa que só fui explorar no ano seguinte, em 1998. Elas eram “Natália”, “A Via Láctea”, “Música Ambiente”, “Dezesseis” e a predileta sobre todas, “Soul Parsifal”.

Havia algo de muito peculiar nesta última, que a tornava muito atraente, e que eu nunca soube definir àquela época. Gostava da letra que era, ao mesmo tempo, delicada, mordaz e trágica. Mas me intrigava, mesmo, o instrumental, que não era parecido com nada que a Legião tivesse gravado: um beat acelerado e, quem diria, bem conduzido à bateria de Marcelo Bonfá; uma guitarra estridente e tocada apenas com palhetadas para baixo, marcando os tempos, sem os dedilhados de Dado Villa-Lobos, uma das marcas da banda; uma atmosfera densa e quase sufocante de teclados, com destaque para as strings, mas também com passagens de pianos acústico e rhodes; além da coda percussiva e recitada, antes do encerramento em fade out.

Enfim, “Soul Parsifal” era uma prova de que, se a Legião continuasse existindo, havia o potencial de explorar outros caminhos estéticos – o que atestava Uma outra estação (o disco póstumo de 1997 que, inicialmente, integraria uma versão dupla de A tempestade), com faixas como a própria “Uma Outra Estação”, “La Maison Dieu” e “Comédia Romântica”.

Muitos anos mais tarde, fui surpreendido com o lançamento de Duetos (2010), solo de Renato Russo de título autoexplicativo. O grande atrativo do álbum – que trazia coisas esquecíveis, como um mashup forçadíssimo entre a releitura de Renato para “Cathedral Song”, de Tanita Tikaran, e a versão de Zélia Duncan em português para a mesma canção, “Catedral” – era a segunda faixa, “Celeste”. Nada mais do que a única parceria entre Renato Russo e Marisa Monte e que, mais tarde, se tornaria “Soul Parsifal”.

Neste post, vamos explorar essa sequência de eventos, mostrando que, curiosamente, “Celeste”/”Soul Parsifal” teve três versões distintas, divulgadas cronologicamente da mais recente para a mais antiga. Ainda, veremos a presença de outras cantoras da música popular brasileira se insinuando entre a parceria de Renato com Marisa.

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Renato Russo e Marisa Monte: parceria que rendeu “Celeste” e “Soul Parsifal”, as faces solar e lunar de uma mesma canção.

1993. Renato está em estúdio gravando Stonewall celebration concert, seu primeiro disco solo, acompanhado do tecladista e produtor Carlos Trilha. Marisa Monte fazia a pré-produção de Verde azul anil amarelo cor de rosa e carvão. Nos intervalos de gravações, surge a parceria, com letra de Renato e melodia de Marisa. Os cantores já eram próximos e a gravação de uma canção, em conjunto, seria questão de tempo. Carlos Marcelo, em Renato russo: o filho da revolução (São Paulo: Planeta, 2016), conta um pouco a respeito dessa amizade:

A carioca Marisa Monte considerava a Legião a sua banda favorita dos anos 1980 […]. Marisa chegou a incluir em turnê uma de suas prediletas da Legião, “Quase sem querer”. Também gostava muito de “Índios” e “Pais e filhos”, tendo escutado sem parar As quatro estações. Eram muito mais do que colegas de gravadora. Ao longo dos anos, Marisa e Renato foram se aproximando a ponto de frequentar os camarins – certa vez, depois de um show de Marisa no Rio em que a cantora usava um figurino bem marcante, Renato foi cumprimentá-la, brincando: “Eu quero esse vestido de veludo pra mim!” – e abrir as portas das respectivas casas, na Urca e em Ipanema, para encontros e conversas (p. 388).

No mesmo livro, Carlos Marcelo traz os detalhes da gravação de “Celeste”:

Aquele instante foi especial. Renato já tinha escrito a letra, mas queria passar a melodia para a cantora. Demonstrava empolgação e ansiedade antes do encontro. Falou para o tecladista e produtor Carlos Trilha:

– Trilha, a Marisa vai vir aí para eu mostrar a música, vamos programar algo rapidinho!

Em quinze minutos, Carlos Trilha prepara uma base instrumental. Programa um loop de bateria enquanto Renato solfeja as linhas de teclado e do baixo. Os dois aguardam a cantora. Marisa Monte chega, percebe que há uma grande cumplicidade musical entre o intérprete e o tecladista. Renato mostra algumas gravações do primeiro disco solo, ela se impressiona. De novo, fica evidente uma das características que admirava na forma de Renato cantar:

– A clareza da voz é impressionante, faz a poesia ficar sempre em primeiro plano. De primeira, você entende tudo o que está sendo dito.

Os dois entram em estúdio, começam o trabalho. Cantarolam o primeiro verso, um dos preferidos de Marisa na música.

Vê que o meu sorriso é verdadeiro

A cantora gosta da ideia de, em tempos de banalização do riso, Renato valorizar a nobreza de um gesto espontâneo: um sorriso real. E gosta especialmente de outro verso de “Celeste”:

E eu vou cantar uma canção pra mim

Acha que, pelo fato de ter sido escrita para ser interpretado por e para alguém que vive de cantar o tempo inteiro para os outros, a frase se torna ainda mais especial.

– Nada mais lindo do que cantar uma canção para si.

[…] Renato escreveu a letra de “Celeste” não para o repertório da Legião, mas na expectativa de escutá-la na interpretação de Marisa: “Ele absorveu de mim coisas que botou na letra. Acho que ele quis que eu estivesse presente na música, para eu cantar com autoridade, para que aqueles versos pudessem ser meus também. Ele quis me captar”.

Marisa acha a letra “linda”, grava a canção para Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão, mas a música não chega a ser mixada para o disco. Ela telefona para Renato e explica os motivos da exclusão: muito extensa, além de ser feita “para duas pessoas cantarem”, o que a faria destoar do resto do álbum. O cantor se decepciona, queria se ouvir na voz da cantora e amiga (p. 399-400).

1994. Renato Russo e Leila Pinheiro mantêm uma amizade iniciada em 1988. Um dia, Renato vai até a casa de Leila com a intenção de compor uma parceria. Pede à cantora que vá ao piano tocar algo como uma bossa-nova, e tem à mão uma letra intitulada “Hoje”, que traz os versos: “Deixa que falem, eles não sabem / Não falo pelos outros, só falo por mim / Ninguém vai me dizer o que sentir / Acho que a gente é que é feliz”. Gravam a parceria em uma fita cassete, que se perde.

1996. A cantora baiana Sylvia Patrícia está planejando seu disco Tente viver sem mim, e pede a Renato uma letra. Recebe a gravação de “Celeste”, agora já renomeada “Soul Parsifal”. O título menciona a ópera “Parsifal” de Richard Wagner, um dos compositores preferidos do cantor da Legião Urbana. Grava a canção como um dueto, conforme a proposta inicial de Renato e Marisa, com a participação de Tony Platão. Mas Tente viver sem mim ainda não é concluído.

1996 ainda. “Soul Parsifal” aparece em A tempestade ou o livro dos dias, cantada apenas por Renato. “Parsifal”, de Wagner, é citada na introdução instrumental pelas strings do teclado de Trilha. Alguns versos de “Hoje” são incorporados à nova versão. Pouco depois do lançamento do álbum, Renato Russo morre.

1998. Após um atraso na produção, finalmente Tente viver sem mim é lançado. Sylvia Patrícia mencionou a presença da canção de Renato, no álbum, em um bate-papo virtual de 2000:

O Renato Russo me mandou a música “Soul Parsifal” quando eu estava escolhendo repertório pro meu disco novo. Eu adorei e gravei. Curiosamente, meu CD demorou um pouco a sair e a Legião gravou a mesma música, só que com algumas alterações na letra. 

2003. No aniversário de Renato Russo, a gravadora EMI-Odeon lança o solo póstumo Presente, com duetos e raridades. A gravação caseira de “Hoje”, entre Renato e Leila Pinheiro, é recuperada e rearranjada em estúdio:

2009. O produtor e historiador musical Marcelo Froés recebe carta branca para tocar o projeto Duetos, aproveitando registros de parcerias entre Renato e outros artistas, se comprometendo também a lançar algumas raridades. O livro de Carlos Marcelo, que vim citando até aqui, traz muitos detalhes sobre como “Celeste”/”Soul Parsifal” veio a integrar o projeto. Mas vou citar, agora, o texto de Chris Fuscaldo em seu livro Discobiografia legionária (São Paulo: Leya, 2016), que parte de um relato de Carlos Trilha:

“Marisa um dia me ligou dizendo que o Fróes a convidou para retomar a parceria, mas ela não queria gravar um dueto falso. Perguntou se eu conseguiria usar o dueto da demo, extraindo só as vozes e fazendo um novo arranjo. O que tinha ali era uma programação para a base da música que eu e Renato fizemos em quinze minutos, antes de Marisa chegar no estúdio para gravar. Precisei estudar um novo software japonês, cheguei a ligar para um professor de física, trabalhei uns trinta dias nisso, e consegui. Chamei Marisa, ela ficou feliz que deu certo e produzimos juntos a gravação dos instrumentos aproveitando a ideia de arranjo que nós três tínhamos tido quando fizemos a demo”, lembra Trilha.

A nova base foi gravada com acompanhamento de Fred Nascimento (guitarra), Gian Fabra (baixo) e outros músicos. Para a bateria, Marisa queria algo anos 1960, e Cesinha deu conta. O arranjo de cordas, ela mesma fez com a boca para Pedro Mibielli (violino) escrever e tocar junto com Hugo Pilger (cello). A cantora só acrescentou backing vocais ou vocais na gravação. Trilha lembra que fez uma parceria prazerosa com Marisa, que preferiu manter a vibração boa do primeiro registro a cantar a letra depressiva que Renato aplicou à canção quando a incluiu no último álbum que a Legião Urbana lançou enquanto ele era vivo. “Ela não gravou a música porque não ficou confortável cantar naquela extensão, mas a comunicação era escassa e Renato acabou não entendendo. Ele ficou um pouco chateado, mas comentou comigo rapidamente e disse que ia gravá-la. Ela tinha adorado a letra. É só ouvir a gravação para perceber que eles estão se divertindo horrores. E ele a alterou justamente naquela fase em que estava debilitado. ‘Celeste’ é bem mais solar, positiva. ‘Soul Parsifal’, não (p. 208).

2010. Último passo da cronologia: Leila Pinheiro grava o disco-tributo Meu segredo mais sincero, trazendo uma nova versão para “Hoje”:

Assim, “Soul Parsifal”, na versão da Legião Urbana, foi a encarnação definitiva de “Celeste”, com letra modificada (com os enxertos de “Hoje”). Já na versão de Sylvia Patrícia, ouvem-se resquícios das ideias originais registradas na demo de 1993 – embora o dueto com Tony Platão só se tornasse conhecido dois anos depois da morte de Renato. E, por fim, já no presente século, “Celeste” finalmente veio a conhecimento do público, com uma nova base instrumental, é verdade, mas reproduzindo com alguma fidelidade o projeto original composto com Marisa Monte.


Como já exposto, as diferenças entre “Celeste” e “Soul Parsifal” se devem, primordialmente, à presença/ausência de versos na versão de A tempestade, uma vez que o registro de Sylvia Patrícia traz a mesma letra que apareceria em Duetos. Vejamos as diferenças:

“Celeste” “Soul Parsifal”
Vê que meu sorriso é verdadeiro
Meu coração está desperto
É sereno o nosso amor e santo este lugar

Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar

Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a minha estrela
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar

Tenho um jasmim, tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção

Tenho um verão, tenho um amor
Eu tenho um desejo e uma oração
Vivo feliz, tenho um amor
E eu vou cantar uma canção pra mim

Vem que é hora de acordar

Vê que a minha força é santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo e depois renunciar

Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a minha estrela

Vê que o meu sorriso
É verdadeiro
Meu coração está desperto
É sereno o nosso amor
E santo este lugar

Tenho jasmim, tenho hortelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã

Eu vou cantar uma canção
Eu vou cantar pra mim…

Ninguém vai me dizer o que sentir
Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar

Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar

Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar

Tenho anis, tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção

Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem eu sou

Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo e depois renunciar

Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir

Tenho jasmim, tenho hortelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim

Passemos também por mais algumas curiosidades, agora sobre a parte instrumental. Observe as informações do encarte de A tempestade:

soul-parsifal

Note que não há menção nenhuma a quem toca baixo. Desde As quatro estações, o instrumento foi revezado entre Dado e Renato nas gravações dos álbuns, mas aqui, nada se fala. Lapso? Ou ninguém toca baixo na faixa? Ouvindo bem atentamente com um bom fone de ouvido, cheguei à resposta: o baixo é tocado por Carlos Trilha nos teclados. Isso é possível porque o arranjo não privilegia muito o balanço, dispensando grooves que seriam impossíveis de se reproduzir nas teclas. Na mesma sessão em que identifiquei o baixo, foi possível observar que a percussão é também bastante elaborada: temos os sons de um triângulo, que adornam sutilmente algumas passagens da canção; de um pandeiro meia-lua, que acompanha a bateria praticamente em toda a extensão da faixa; de bongôs, que entram junto com Renato nos primeiros versos; além dos instrumentos na parte recitada que podem, na verdade, ser uma programação eletrônica.

Na versão disponível do YouTube, um dos ouvintes fez um comentário muito interessante:

comentario-soul-parsifal

Realmente, “Soul Parsifal” foi o mais próximo que a Legião chegou do drum n’ bass, e talvez isso tenha sido o que me fisgou à primeira audição, já que o ritmo, inexplicavelmente, sempre me cativou.

E, por fim, uma revelação de Carlos Trilha: “Soul Parsifal” e “O Livro Dos Dias” receberam registros iniciais de vozes que, por conta da insatisfação de Renato com sua qualidade, foram refeitos. Assim, os vocais dessas canções são, literalmente, os últimos suspiros do cantor. Confira no depoimento abaixo, por volta dos 7′:

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