132. Roberto Carlos: “Lady Laura”

Tenho às vezes vontade de ser
Novamente um menino
E na hora do meu desespero
Gritar por você
Te pedir que me abrace
E me leve de volta pra casa
Que me conte uma história bonita
E me faça dormir


Quem me conhece, sabe que é muito difícil que eu consiga derramar sequer uma única lágrima, aconteça o que acontecer. Sem vergonha de admitir, já chorei; não muito, mas chorei – e a última vez foi há mais de dez anos. Tive lá meus momentos de comoção, desde então; as lágrimas não caíram. Quando da inesperada morte de minha avó, no ano passado, o susto foi grande demais e havia uma série de providências a serem tomadas rápida e incansavelmente: comunicar um substituto para minhas aulas, preparar algum material para enviar a ele, conseguir uma passagem de ônibus para São Carlos e, finalmente, chegar praticamente a tempo de selar o caixão de minha obaa-chan. No meio da correria, enquanto passava a pé em frente à igreja de Santa Terezinha a caminho da rodoviária, fraquejei e, por pouco, não desabei. Como precisava correr para não perder a viagem, engoli o choro. Preocupava-me, mesmo, era com meu pai, que devia estar consternado.

“Lady Laura”, clássico de Roberto lançado no álbum Roberto Carlos (1978), estava já programada para este Dia da Mães praticamente desde o início do blog. No entanto, antes de vir a escrever este texto, coloquei meus headphones e parei para escutar atenciosamente essa bela composição dos insuperáveis Roberto e Erasmo Carlos. E eis que, ao ouvir a voz do rei cantar tão ternamente o desejado regresso à infância – num ímpeto psíquico de autojustificação, como que buscando legitimar uma incurável dependência para com o afeto materno -, senti os olhos úmidos.

E pensei em como todos os versos da canção traduzem exatamente o que sinto diante da figura de minha própria mãe. (Vou avisando: daqui pra frente, é puro clichê). Uma mulher que sacrificou sua juventude e, talvez, muitos de seus sonhos – e tudo isso por mim, que veio ao mundo sem ser convidado. Aquela que precisou suportar a dor de ver o marido se despedir para uma longa viagem, criando o único filho sozinha, por quase três anos, sem nada lhe deixar faltar. Que me ensinou a importância da educação, da caridade, do altruísmo – em uma palavra, do amor – e que, mesmo diante de mostras de que não aprendi a contento essas lições, não desistiu de acreditar que, um dia, seu filho será uma pessoa melhor.

Eu mesmo, muitas vezes, desacreditei. Já cheguei a pensar que não valia a pena lutar para corrigir certos aspectos de minha personalidade, por exemplo, certa covardia paralisante que sinto diante de dificuldades. Mas sempre vale tentar, sempre é tempo, e esse talvez seja o ensinamento mais precioso que recebi dessa alma tão fundamental para minha existência. Ela acredita; portanto, quem sou eu para pensar o contrário? Como (e por que) ousar contrariá-lá? Se ela está comigo, não posso ter nada a temer. Ou, como canta Roberto: “Quantas vezes me sinto perdido / No meio da noite / Com problemas e angústias / Que só gente grande é que tem / Me afagando os cabelos / Você certamente diria: / Amanhã de manhã / Você vai se sair muito bem”.

Como disse, quando meu pai perdeu sua mãe, confesso que senti dor maior por conta dele próprio (e de meu avô), já que minha avó sucumbiu de forma rápida e indolor. Li em algum lugar que deveria ser proibido que as mães se fossem… e não poderia concordar mais, no meu egoísmo infantil de filho. Ora, é certo e justo que minha mãe, um dia, mereça também um descanso definitivo por tanto ter trabalhado por mim, apenas por amor, sem nada desejar em troca. Mas sei também que, se eu vir a passar pelo que meu pai passou, será meu momento mais doloroso.

Talvez, então, apenas “Lady Laura” possa soar como consolo, me transportando para infância despreocupada, quando tudo o que parecia haver (e importar) era aquele afago carinhoso e sem igual: “Quando eu era criança / Podia chorar nos seus braços / E ouvir tanta coisa bonita / Na minha aflição / Nos momentos alegres / Sentado ao seu lado sorria / E nas horas difíceis podia / Apertar sua mão”.

Neste exato momento, estou na casa onde fui criado desde os 5 anos. Minha mãe dorme a poucos metros e, caramba, como sou grato por estar aqui e agora… Alheia a tudo isso que aqui registro, ela apenas sonha e, só por tê-la por perto, sinto uma sensação indescritível de conforto, segurança e gratidão – mais ou menos como o pequeno Roberto Carlos devia se sentir quando no colo da eterna Lady Laura.

roberto-carlos.jpg
Roberto Carlos: quem soube cantar o amor filial, linda e definitivamente, em “Lady Laura”. (Nem preciso dizer que minha mãe é fã do rei, certo?)

Muita gente gravou “Lady Laura” e há de tudo: versões (mais) bregas, instrumentais, em outras línguas, em português de Portugal. Nada disso supera ele, o rei Roberto Carlos, cantando “Lady Laura” ao vivo. Fique com ele, em Roberto Carlos em Jerusalém (2011), poucos meses após a partida da querida Lady Laura:

6 comentários

  1. Eu nunca tive uma relação amistosa com minha mãe (nem com meu pai),mas como eu sei que Deus não joga dados,eu sei também que nasci no lugar certo,apesar de não aceitar.

    Curtir

    1. Sinto muito mesmo pelo fato da relação com seus pais nunca ter sido a mais desejável. De minha parte, gosto de acreditar nisso que você fala: nascemos no lugar e na família certas, mesmo que não pareça. Deus não joga dados…

      Curtir

  2. Não sabia que era fã de Roberto Carlos,inusitado,ou não,sei lá.As pessoas mais intelectualizadas tem vergonha de assumirem que gostam do ”rei”.

    Curtir

    1. Muito obrigado por me considerar uma pessoa intelectualizada! De qualquer forma, a obra de Roberto é tão grande (em todos os sentidos) que acho muito difícil que alguém a renegue completa e sinceramente. Grato pelo comentário!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s