131. Leila Pinheiro: “Serra Do Luar”

Amor, vim te buscar
Em pensamento
Cheguei agora no vento
Amor, não chora de sofrimento
Cheguei agora no vento
Eu só voltei pra te contar
Viajei… fui pra Serra do Luar
Eu mergulhei… Ah! Eu quis voar
Agora vem, vem pra terra descansar


“Serra Do Luar” é, talvez, o maior sucesso de Leila Pinheiro. A canção apareceu no álbum Outras caras (1991), numa gravação que contou com Eduardo Souto Neto nos teclados e Marcos Suzano na percussão, com arranjo de Guilherme Arantes.

Composta por Walter Franco e apresentada no festival MPB-Shell de 1981, foi disponibilizada para o público na forma de um compacto simples, no mesmo ano. Mas segundo depoimento do cancionista em 2014 no Projeto Notas Contemporâneas, sediado no Museu da Imagem em Som, Leila veio a conhecer a canção a partir de uma apresentação que Franco realizou em São Paulo, “quando explodiu a Guerra do Iraque”, ou seja, por volta de 1990.

A letra, como tantas do compositor, transporta o ouvinte, o conduzindo para o clima bucólico da tal Serra do Luar. Nesse aspecto, a melodia parece induzir a um estado de quietude e pacificação, quase como uma canção de ninar – e não foi surpreendente ouvir da querida Cândida, minha companheira de gabinete na universidade, que “Serra Do Luar” já foi muito usada para acalentar o sono de seu filhinho Antônio.

O refrão, por sua vez, é impressionante: “Viver é afinar um instrumento / De dentro pra fora / De fora prá dentro / A toda hora, a todo momento / De dentro pra fora / De fora prá dentro”. Que mensagem desconcertante! Parece mesmo capaz de interromper o fluxo dos pensamentos, encaminhando-nos para um estado meditativo – o que é, aliás, exortado pela menção incidental a outra obra de Franco, “Coração Tranquilo”: “Tudo é uma questão de manter / A mente quieta, a espinha ereta / E o coração tranquilo”.

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Leila Pinheiro: apontando para a origem da sabedoria que inspirou Walter Franco.

Leila é o tipo de intérprete que dispensa grandes ornamentos instrumentais em suas atuações. Ou, ao menos, deveria dispensar: penso que suas interpretações são sempre melhores quando a cantora paraense se apresenta sozinha ao piano, coisa que nem sempre acontece.

Felizmente, “Serra Do Luar” mereceu um registro assim, minimalista, em sua discografia, no ao vivo Mais coisas do Brasil (2001). No entanto, vou compartilhar aqui outra versão oficial, presente na coletânea Palco MPB III (2003), muito semelhante, mas com o acréscimo do emocionante acompanhamento da plateia. Fiquei verdadeiramente enternecido ao escutá-la, e acabei até por esquecer de certa dor que me incomodava enquanto escrevia o post:

As outras versões oficiais de “Serra Do Luar”, salvo melhor juízo, são duas.

A do próprio Walter Franco, no mencionado compacto de 1981:

E a da cantora capixaba Tamy no disco-tributo a Walter Franco Um grito que se espalha (2018). Assim como na versão de Leila, temos aqui também o delicado acompanhamento de um piano (sob uma atmosfera eletrônica, de início, minimalista), assim como uma citação a “Coração Tranquilo”, dessa vez, recitada em castelhano:

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