261. Leci Brandão: “Isso É Fundo De Quintal”

E lá vem o Sereno trazendo um recado do Ubirany
Vem contando pra gente: Bira Presidente!
Vai chegar aqui, com uma cara de anjo,
Tocando seu banjo, o Arlindinho Cruz
E Dona Ivone Lara, essa jóia tão rara, tão cheia de luz
E lá vem o Sombrinha fazendo harmonia com seu cavaquinho
Vai versar um partido com um cara chamado Zeca Pagodinho


A antologia Samba, cultura e sociedade, organizada por Marcelo Braz (São Paulo: Expressão Popular, 2013) traz um capítulo intitulado “Sambando e lutando: as escolas de samba do Rio de Janeiro e as trajetórias de Paulo da Portela e Antonio Candeia”. Escrito por Guilherme Ferreira Vargues, o texto narra o longo processo por meio do qual o samba, de atividade proibida, se transformou em festividade oficial na então capital brasileira.

Importa destacar, do capítulo, a periodização proposta pelo autor, considerando uma cronologia sobre as diferentes formas de agremiação dos bambas cariocas:

a) Os tempos de luta por integração

b) Os tempos de afirmação

c) Os tempos do mecenato, jogo do bicho e da academia

d) A dualização de projetos

O último período é o que nos interessa, considerando o tema do post de hoje:

[…] no início dos anos 1970, começam a ocorrer, dentro ou fora das escolas de samba, discursos de crítica ao seu crescimento excessivo. Nesse tempo, figuras como Cartola, Paulinho da Viola, Candeia e tantos outros começam a expressar o seu descontentamento com o rumo dos desfiles. Intelectuais de diversos segmentos também começam a criticar. É o tempo da “Superescola de Samba S/A”, nome de samba de Aluízio Machado, em que a última palavra é dada pela tríade bicheiro-carnavalesco-patrocinador. Em 1975 ocore o racha na Portela de Candeia e outros sambistas, que saíram para fundar a Granes Quilombo. Daí em diante começa a se fortalecer um projeto alternativo às escolas tradicionais; alguns anos depois são criados o Clube do Samba, de João Nogueira, e o Cacique de Ramos, espaços que, além de alternativos, denunciam as dificuldades do sambista nas escolas tradicionais (p. 209).

“Isso É Fundo De Quintal”, fechando o lado-A do LP Um ombro amigo (1993) de Leci Brandão, veicula uma exaltação desses novos grêmios sambistas, mais precisamente, da turma do Cacique. Composta pela cantora carioca e por Zé Maurício, a obra exala movimento: o ouvinte se sente em meio aos preparativos de uma tremenda festa, com convidados ilustres se organizando para providenciar um “pagode pra valer”.

Entre os sambistas, estão aqueles mencionados explicitamente e os apenas aludidos. Dentre esses últimos, caso que mais me chama a atenção se refere à passagem “Deixa pra Vicentina, esta negra divina, fazer a comida”, que cita “No Pagode Do Vavá”, de Paulinho da Viola – com os versos “Provei do famoso feijão da Vicentina / Só quem é da Portela é que sabe / Que a coisa é divina”. Apesar de Leci não cantar o nome de Paulinho, é interessante a referência a uma canção sua que também narra um domingo de fartura e bom samba, movido pela chegada de diversos convidados (o mais ilustre, o recém-finado Elton Medeiros):

Sinto enorme satisfação ao perceber que já vi de perto muitos dos bambas cantados por Leci: passei uma noite inteira assistindo ao Sombrinha cantar bem na minha frente, já vi Paulinho da Viola tocar (como menciono aqui) e estive diante de Sereno e seu Fundo de Quintal no ano passado.

A própria Leci também já vi de perto, mas num outro contexto: era um Dia da Consciência Negra – mais precisamente, o de 2016 – e estava com os amigos de gradução Babi e MP, em plena Avenida Paulista, junto da parceiríssima Nicéa, que acabara de apresentar a eles. Iríamos todos petiscar alguma coisa na Augusta, mas resolvemos acompanhar a movimentação do feriado nacional, de olhos nuns camisas-amarelas que, ali por perto, parecem ter se reunido só pra provocar o movimento negro. Leci, deputada estadual por São Paulo desde 2010, apareceu para discursar e, se bem me lembro, deu uma canja, a capella.

leci-brandao.jpg
Leci Brandão: samba e militância pra valer.

O fragmento que transcrevi acima menciona também o Clube do Samba, cujo hino oficial – na mesma linha da mais antiga “No Pagode Do Vavá”, e da mais recente “Isso É Fundo De Quintal” – foi composto pelo próprio João Nogueira. Nele, aparecerão outros bambas de respeito: o ABC do samba (Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes), Clementina de Jesus, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila e até Chico Buarque.

Apenas uma personagem é mencionada tanto em “Clube Do Samba” quanto “Isso É Fundo De Quintal”: Dona Ivone Lara, e com todo o merecimento.

Curta também o “Clube Do Samba”, cantada por João e Martinho:


Existem muitas versões para “Isso É Fundo De Quintal”, geralmente, inserida em pot-pourris. Vou destacar apenas duas gravações alternativas, que releem a própria canção, sem combiná-la com outras.

Primeiro, há o registro ao vivo de Leci em Eu sou assim (2000). Encerrando sua intensa interpretação, Leci altera o refrão: “Isso é Fundo de Quintal, isso é povo pra valer!”. Muito bom:

E o Pagode da Tia Doca, em Só as melhores do passado (2000), apresenta uma versão cheia de axé:

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