270. Vital Farias: “Ai Que Saudade D’Ocê”

Não se admire se um dia um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai que saudade d’ocê


Só fui escutar seu nome, pela primeira vez, aos 15, quando ouvi o registro em CD da reunião de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e os primos Zé e Elba Ramalho – O Grande Encontro (1996). Lá pelas tantas, era Elba quem antecipava à plateia o compositor do próximo número que cantaria: “Vital Farias”.

Mais tarde é que fui ligar o nome à pessoa: era o autor da famosíssima “Ai Que Saudade D’OCê”, trilha da novela global Renascer e, portanto, canção que sempre soube de cor, ainda que de forma meio “inconsciente”.

A obra foi composta em 1982 e apresentada no álbum Sagas brasileiras, lançado no mesmo ano. Um pé-de-serra legítimo, “Ai Que Saudade D’Ocê” traz a coloquial e festiva união de preposição e pronome em seu título, além de uma melodia simples e cativante.

As alturas melódicas não escondem segredos: percorrem o modo jônico da tônica do primeiro acorde, sem enormes saltos intervalares. Estamos no mundo da conjunção, ainda que não realizada, mas possível. A repetição do padrão melódico dos primeiros versos sugere o processo de tematização. Este é acompanhado de figurativização no verso “Faz tempo que eu não te vejo”, indicando que o sujeito planeja romper a inércia associada aos temas melódicos anteriores, iniciando um movimento de aproximação para com o objeto do desejo, cuja conclusão não chega a ser narrada na canção.

Mas não foi para analisá-la que a trouxe ao blog hoje. Foi porque me lembrei, recentemente, que investi certo tempo de meu julho de 2011 na produção de uma modesta peça de arte, inspirada justamente nessa obra de Vital.

À época, havia me aproximado de uma garota – que, para não constrangê-la, dado que está atualmente casada, não será nomeada; e, além disso, permanece como amiga querida, a quem tive a alegria de rever pela última vez em 2017 – e estava realmente gostando do resultado. Havia uma espécie de tensão atrativa entre nós, que já durava desde 2008. Com um empurrãozinho de um casal de amigos nossos, acabamos iniciando uma série de encontros, que não tiveram maiores consequências, mas foram ótimos enquanto duraram.

Porém, não morávamos na mesma cidade, naquele venturoso 2011. Por isso, era fácil bater a saudade. E, num desses dias de vazio, ouvia O Grande Encontro 2 (1997), que trazia uma belíssima versão para “Ai Que Saudade D’OCê”:

Naqueles anos, vinha retomando uma atividade que, em minha infância e até a certa altura da adolescência, exercera certo protagonismo (e chegou mesmo a arregimentar alguma fama): o desenho. Vinha praticando uns traços mais livres à caneta, desde 2009. No ano seguinte, resolvi investir no pincel com nanquim, tentando desenhar caracteres chineses, numa livre apropriação da arte do shodo (caligrafia japonesa).

Pois nesse 2011, juntei as duas coisas: para driblar o tédio, amenizar a saudade e presentear a garota, resolvi iniciar um pequeno desenho do tal beija-flor da canção de Vital, começando com um traço rústico e, então, pintando os contornos com pinceladas mais livres e fragmentadas.

Tenho até hoje o arquivo de apresentação de slides que preparei especialmente para compartilhar com a moça. Ali, narrava passo a passo das decisões tomadas, desde a concepção sobre qual desenho faria, até um pequeno detalhamento das técnicas que empreguei no ato de colorir. Não vou aborrecer o leitor com uma vaidosa exibição de todo o conteúdo do arquivo. Mas pelo menos o resultado final desse estudo (se assim podemos chamá-lo) vale a pena mostrar:

ai-que-saudade-doce.jpg

O possível relacionamento não vingou. Restou um desenho tolo (mas feito com dedicação e muito carinho), uma boa amizade e, algo tão bom quanto, lembranças muito gostosas ressurgindo a cada vez que escuto “Ai Que Saudade D’Ocê”.

E que saudade!

vital-farias.jpg
Vital Farias: um paraibano cantando saudades para todo o Brasil.

Muita gente já regravou a canção, portanto, comentarei aqui apenas duas versões.

A primeira é o registro da apresentação histórica que uniu Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai, Cantoria, lançado em duas partes nos anos de 1984 e 1985. “Ai Que Saudade D’Ocê” aparece no volume 1:

Compartilho também o violonista Henrique Neto apresentando um arranjo e uma execução impecável da obra de Vital, convertida num belíssimo número instrumental:

4 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s