280. Flying Chair: “Inundação De Amor”

Sou do tipo que você não gosta
Mas um dia vai gostar
Sou do tipo que você gostou
E não quer mais gostar
Mas o nosso tipo conhecemos de montão
Mas o nosso tipo conhecemos


O ano de 2002 foi muito intenso: grandes emoções. Mas foi também muito corrido. Frequentava o último do ensino médio na parte da manhã e, à tarde, retornava à escola para ter uma série de aulas de aprofundamento. Tirando um churrasco ou ensaio em algum fim-de-semana (já que, à época, nossa banda estava prestes a ser desativada – tocamos pela última vez em 2003 –, mas ainda respirava com a ajuda dos aparelhos), a rotina era de muito estudo.

Era pra lá de cansativo, mas tive minhas recompensas, ao longo dos meses.

Uma durou até metade do ano: toda vez que voltava de bicicleta da escola para casa, por volta das 18h30, era sempre recebido com muita festa por nosso vira-lata Juca. Putz, adorava aquele cachorro! Infelizmente ele foi atropelado em julho (e em setembro, por atropelamento também, eu é que quase fui comer capim pela raiz).

As outras recompensas eram as canções, lógico. Estava conseguindo encontrar discos por preços absolutamente camaradas, e sempre tinha novidades para escutar à noite, quando enfim concluía as tarefas escolares.

Um dos álbuns que comprei nessa época foi o MTV ao vivo (2000) do Ira!, que vinha acompanhado, veja só, da fita VHS do show. Lembro que ter tirado várias noites para assistir, rebobinar e assistir novamente às cenas daquela marcante apresentação da banda paulistana.

Ali, havia uma canção que destoava completamente do restante do repertório, essencialmente roqueiro: “Inundação De Amor”. Aquele som meio eletrônico não parecia obra do Ira!, e o encarte confirmava: seus compositores eram Ciro Pessoa e Júlio Barroso.

Já falamos sobre Barroso aqui, no post sobre sua Gang 90. Falta apresentar Ciro. Ex-integrante dos Titãs, saiu do conjunto antes mesmo do lançamento de seu primeiro LP, sendo um personagem pouco conhecido até de muitos dos fãs da banda paulista. Infelizmente, perdi a oportunidade de vê-lo tocando em São Carlos, no festival Rock na Estação de 2012.

Assim, pelo que imaginei, “Inundação De Amor” seria alguma pérola dos anos 1980 que o Ira! quis recuperar do esquecimento. E, de fato o era: até então, nunca havia sido gravada, quer dizer, jamais encontrara solo fértil para florescer nem no repertório da Gang 90, no dos Titãs.

Mas, o arranjo proposto pelo Ira!, de tão estranho em relação à sonoridade do restante do MTV ao vivo, desagradou a parte dos fãs. E, como li na época, isso ocorreu desde a gravação da apresentação. Numa entrevista ao Fã-Clube Oficial Ira!, o vocalista Nasi foi perguntado a respeito:

I!N! – Durante a execução de “Inundação de Amor” alguns reclamaram. O que você achou disso?

N – Foram duas coisas. Nesse show nós tivemos um imprevisto chato que foi aquela chuva que fez o show atrasar bastante. As pessoas reclamaram, ficaram mais de 1 hora esperando, mas a gente não podia fazer nada porque se a gente começasse o show no horário, muita gente ia ficar de fora. E enquanto as pessoas esperavam, o Edgard [Scandurra] colocou uma fita do Massive Attack. Não que eu não ache legal o Massive Attack, mas como tocou só isso o público ficou meio massificado. Depois do [álbum] Você não sabe quem eu sou, nós tivemos um problema de aceitação com o público, que achou que o Ira! ia virar tecno. Então, a partir daí, qualquer coisa que tivesse um DJ, uma programação na música, o público já fica intolerante. E quando o Edgard foi apresentar o DJ, acionou o Groove Box, essa parte do público já ficou pensando “lá vem aquela ‘tecnera’…” Eu já acho que não, acho que nessa música nós conseguimos fazer um arranjo bem moderno, com nuances de drum ‘n bass, e ao mesmo tempo pesado, rock. Essa intolerância é um pouco de ranço do Você não sabe quem eu sou


Então “Inundação De Amor” me lembra aquela época de juventude, e poucas vezes voltei a escutá-la, desde então.

Porém, recentemente, Ciro Pessoa – que, a partir dos anos 1990, continuaria participando da vida cultural do país, compondo e escrevendo – formou uma nova banda, o Flying Chair. (Não sei de onde veio a inspiração para o nome, mas lembro que, quando veio tocar no Brasil com o Guns n’ Roses em 1992, Axl Rose atirou uma cadeira sobre nossos jornalistas, do alto de seu apartamento no hotel). A banda lançou seu EP de estreia em 2016 e, no ano seguinte, divulgou seu primeiro álbum.

Ali, consta uma versão muito bacana sobre “Inundação De Amor”, bem no meio do disco. Finalmente, a canção encontrou um arranjo que poderia ser mais aceito pelos fãs do Ira! E é interessante observar que a faixa, de certa forma, inaugura uma espécie de “trilogia dos anos 1980” em Flying chair. Com efeito, sucedem-se a ela “Sonífera Ilha” (sim, Ciro é um dos compositores do primeiro hit dos Titãs), num arranjo mais roqueiro e menos ska; e “Cabine C – Na Primavera”.

Ora, Cabine C era a banda em que também tocaram o próprio Ciro, além de Edgard Scandurra, Ricardo Gaspa (baixista do Ira! em sua formação clássica) e o ex-titã Charles Gavin. Pois é, São Paulo era pequena demais para duas bandas tão enormes, e acho um barato as relações entre os integrantes, culminando numa inacreditável permuta de bateristas (Gavin tocou no Ira! e foi para os Titãs; André Jung fez o caminho contrário).

De qualquer forma, importa destacar que “Inundação De Amor” pertencia ao repertório do Cabine C.


No fim das contas, todo o Flying chair é legal. A sonoridade rock atravessa todas as faixas, ora com acenos ao blues e à psicodelia, ora com nostalgia dos anos 1970 (ou antes). Enfim, vale a escuta, seja você fã dos Titãs ou não. Aliás, se há algo de Titãs em Flying chair, é apenas o timbre de Ciro, que lembra bastante o do Branco Mello (e, aliás, sempre achei que havia “vozes gêmeas” dentro mesmo dos Titãs, dada minha enorme dificuldade em dicernir se é Paulo Miklos ou Sérgio Britto quem está cantando – e, pra complicar, em canções como “Miséria”, os dois dividem os vocais).

Sim, senhores, o rock brasileiro não ficou preso lá atrás, na “década perdida”. Ciro está aí para provar.

flying-chair.jpg
Ciro Pessoa e o Flying Chair: rock dos bons, para muito além dos 80’s.

O Flying Chair apresentou uma versão para “Inundação De Amor” em Ao vivo na cena (2018):

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