333. Sérgio Sampaio: “Tem Que Acontecer”

Não fui eu nem Deus
Não foi você nem foi ninguém
Tudo o que se ganha nessa vida
É pra perder
Tem que acontecer, tem que ser assim
Nada permanece inalterado até o fim


Numa saída noturna em pleno carnaval de 2014, estava num excelente botequim de São Carlos (o Almanach) e, enquanto beliscava meu petisco, contemplava uma competente banda tocando clássicos carnavalescos.

O repertório era essencialmente composto por marchinhas, com muito Lamartine Babo. Uma canção, porém, chamou nossa atenção, minha e de Cris. Não porque não a conhecêssemos, pelo contrário, percebemos sabê-la de cor. O que incomodava era justamente isso: onde tínhamos escutado antes aquele refrão grudento sobre botar “meu bloco na rua / Brincar, botar pra gemer”? E, aliás, todos no bar pareciam conhecer e gostar da obra, especialmente o público mais velho, que não se melindrou e caiu pra valer na pista de dança.

Bem depois é que fui escutar a versão do Casuarina para a canção – justamente, “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua”, em que o vocalista João Cavalcanti perfazia um dueto com seu pai, o pernambucano Lenine. Mas tenho certeza de que a conhecia, com o perdão do trocadilho, de outros carnavais.

Muito tempo depois é que fui entender a importância da canção e de seu autor, Sérgio Sampaio. Na verdade, já tinha escutado falar desse capixaba de Cachoeiro de Itapemirim (mesma cidade do Rei, Roberto Carlos) em meus anos de moleque: um volume da 89 – revista rock trazia uma excelente matéria sobre Raul Seixas, com a discografia comentada do Maluco Beleza, explicando que um de seus primeiros álbuns fora gravado com uma tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, por sua vez, composta por Raulzito, Edy Star, Miriam Batucada e o tal Sérgio Sampaio.

No embalo da escuta de Walter Franco (em tributo à partida do mestre, e também porque o conheci num final de ano, sendo que gosto de reouvir canções aproximadamente nos mesmos meses em que as ouvi pela primeira vez – coisa de virginiano), andava investindo meu tempo em discos de outros artistas (injustamente considerados) malditos, e assim passei os últimos tempos completamente fissurado pelos três únicos álbuns que Sampaio nos legou, quando ainda em vida. (Um quarto lançamento, Cruel, veio a lume em 2006 graças ao resgate de Zeca Baleiro, por meio de sua Saravá Discos).

A demanda por uma canção desse artista multifacetado – cujos álbuns abrigam rocks, blues, choros, sambas e outros gêneros, em menor medida –, aqui no blog, já era antiga: no começo do ano, Júlia pediu “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua”. Fui adiando o atendimento até que, na semana passada, coincidentemente, um encontro inusitado com meus amigos Hirono (há tempos morando fora do hospício em que se converteu este país, e de passagem por São Paulo) e Póli (este, vivendo em Pinheiros, mas com quem raramente me encontro) fez surgir o assunto “Sérgio Sampaio”. Pensei que, então, estava mais do que na hora de abordá-lo no 365 Canções Brasileiras.

De cara, excluí as canções de seu álbum de estreia, Eu quero é botar meu bloco na rua (1973), embora estivesse tentado, é verdade, em sugerir algum elo entre “Viajei De Trem” e os quatro trens de Raul Seixas, mais especificamente, o mais cronologicamente próximo, “Trem Das Sete”. Afinal, o amigo  Raulzito foi quem produziu o disco que, de fato, transpira a influência do autor de “Gîtâ”. Aliás, seria muita heresia, de minha parte, considerar que Eu quero é botar meu bloco na rua é praticamente uma extensão da obra de Raul? Fica a provocação.

Também não consegui reunir condições intelectuais para processar o belo e complexo terceiro álbum de Sampaio, Sinceramente (1982). Aliás, como bem reparou o colega Léo Nogueira em seu O X do Poema, tivesse Sampaio sobrevivido para além de 1994 (quando nos deixou, com apenas 47 anos), poderíamos esperar por lançamentos cada vez mais interessantes e primorosos, fruto da atividade criadora de um artista incomum:

A conclusão a que cheguei foi a de que o Brasil perdeu um compositor em plena evolução, pois uma mais apurada análise mostrou-me que estava havendo uma melhora gradativa disco a disco. A se manter essa linha de evolução e a doença não lhe subtraísse os anos, viriam discos primorosos na sequência de Cruel.

Passei, então, os últimos dias concentrado em Tem que acontecer (1976). Para muita gente, trata-se da obra-prima de Sampaio, pois reúne uma quantidade assustadoramente grande de canções assustadoramente boas.

Para não repisar todos os milhares de comentários que elogiam as qualidades do disco, acrescento uma única informação, da qual não encontrei nenhuma congênere na crítica especializada: escutar Tem que acontecer, pela primeira vez, chapado, é uma experiência orgástica.

Reminiscências dessa experiência psicotrópica me levaram a pensar em três canções como candidatas a serem aqui tematizadas. Todas compartilham de uma marca estilística que, penso, se relaciona com a forma com os concretistas trabalham as dimensões sintagmáticas e paradigmáticas da criação poética.

O primeiro caso é a canção de abertura, o samba – gênero que, com suas variações, é trabalhado em praticamente metade do álbum – “Até Outro Dia”. Partindo do silêncio e acrescentando, camada a camada, os instrumentos (a partir da percussão na caixa de fósforo), Sampaio demarca um território na espertíssima letra: “Quem manda em mim sou eu / Quem manda em você é você / Por isso eu quero pedir / Pra você se mandar / Até outro dia / Em outro lugar”. O encerramento da faixa, por outro lado, remove os instrumentos, novamente, camada a camada, até os versos “Silêncio na tarde dos homens / Silêncio”. E vem o silêncio, real e inesperadamente!

Há um jogo semiótico semelhante em “Velho Bode”, um choro que, a partir dos clichês instrumentais explorados pelo regional que acompanha Sampaio, cria um contraponto interessante com a letra, cujo mote é uma gíria jovem (pelo menos à época… e já fiquei muito de bode, embora não saiba se a juventude atual ainda utiliza a expressão). Na sequência dos versos “Você é um fracasso / Do meu lado esquerdo do peito / Uma corda de nylon, de aço / Que arrebenta quando eu faço Dó”… advinha o que acontece? Um inusitadíssimo acorde de Dó Maior é arranhado justamente quando é pronunciado o nome da nota. Apesar de essa ser mesmo a tonalidade, a riqueza harmônica da canção – cheia de dissonâncias, como sétimas e acordes diminutos – jamais levaria a crer que o acorde mais primitivo de todos, o primeiro que se aprende nas aulas de violão, apareceria em algum momento. Pois Sampaio escolhe, com precisão microscópica, o momento de convocá-lo.

Mas a canção que escolhi, afinal, foi a obra que intitula o álbum, “Tem Que Acontecer”. Balada linda e amargurada, baseada numa levada ao violão de nylon, a canção traz em sua letra a marca da impotência associada ao fatalismo, diante da observação de que, no fim das contas, nada sobrevive para sempre. A entropia é implacável e, na verdade, a atitude fatalista é mesmo realista, fria e (literalmente) calculista: “Não fui eu nem Deus / Não foi você nem foi ninguém / Tudo o que se ganha nessa vida / É pra perder / Tem que acontecer, tem que ser assim / Nada permanece inalterado até o fim / Se ninguém tem culpa / Não se tem condenação / Se o que ficou do grande amor / É solidão / Se um vai perder / Outro vai ganhar / É assim que eu vejo a vida / E ninguém vai mudar”.

No caso dessa faixa – que traz o amigo João de Aquino ao violão, Laércio de Freitas nos teclados, Altamiro Carrilho nas flautas e orquestração do maestro Lindolfo Gaya –, fiquei impactado com o refrão, que concentra muita energia nos versos iniciais, dissipada à medida que o enunciador se apercebe, novamente, do caráter disjuntivo do tempo e de sua impotência diante de Cronos. Logo que ouvi a canção pela primeira vez, impressionei-me com a acuidade geométrica que a letra, combinada com a melodia, conseguia impor à sequência poética em questão. Tanto que, naquele momento, já imaginei a seguinte imagem, que construí de forma a explicitar a forma como o canto de Sampaio conduz uma narrativa imaginária (observe o verbo “faria”, no futuro do pretérito) a desfalecer asseverativamente, quando examinada à luz da inescapável realidade:

tem-que-acontecer.jpg

Note que, no primeiro conjunto de versos, à esquerda, a resignação esbarra na contraposição entre os pares eu/impotência e Deus/onipotência. No segundo conjunto de versos, a melodia perfaz uma parábola quase perfeita, já que afastados de todo resquício de idealismo ou pensamento místico: aqui, impera a mais dura realidade de ser, além de meramente humano, um humano marginalizado, um simples compositor popular.

Embora jamais tenha recebido o reconhecimento merecido em vida, Sérgio Sampaio vem sendo, felizmente, redescoberto por gente da minha e de sua própria geração.

Que suas composições – poucas, mas geniais – continuem inspirando esse Brasil tão carente de gente corajosa, que tope, inclusive, a vestir o manto de maldito ou maldita.

sergio-sampaio.jpg
Sérgio Sampaio: genialidade para além do (preguiçoso) rótulo de maldito.

Zeca Baleiro, que conheceu pessoalmente Sampaio em 1989, participou do tributo Balaio do Sampaio (1998), defendendo “Tem Que Acontecer”. A versão ficou linda, exacerbando a melancolia da gravação original – que, apesar de tudo, é insuperável:

A carioca Isabella Taviani também releu “Tem Que Acontecer”, em seu Ao vivo (2005). Embora a releitura ameace reproduzir o arranjo de Zeca Baleiro, com seus violoncelos, o que se segue é uma animada e vibrante peça com uma sonoridade flamenca:

E tem a curiosidade: os portugueses do Porto, BoiteZuleika, gravaram uma versão tristíssima (e meio indie) para a canção, na coletânea Vários – sons de Vez 10 anos (de 2014, em tributo aos artistas da vila Arcos de Valdevez). Confira:

5 comentários

  1. Me lembro bem do primeiro sucesso do compositor,e de nada mais.O fato dele não se render ao sistema o afastou das rádios e televisões.

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    1. Ao menos, Sérgio Sampaio vem sendo redescoberto e cada dia mais pessoas têm conhecido o valor de sua obra. Uma pena que esse reconhecimento não tenha sido proporcionado ainda quando o compositor era vivo.
      Grato pelo comentário.

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  2. Salve, Miyage san! Sempre um prazer vir aqui ler seus belos e inteligentes textos, alguns dos quais ainda maiores que os meus — e em tempos em que as pessoas leem cada vez menos isso chega a ser um ato heroico, ou de loucura (falo de um louco pra outro, claro. rs). E prazer complementar é ser citado. Sigamos em sintonia. Acho que já comentei antes, mas o faço de novo: preciso passar por aqui mais vezes. Sempre uma maneira deliciosa de obter um aprendizado a mais.

    Abração,
    レオ。

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    1. Bom, Léo, você sabe que eu frequento O X do Poema há tempos, e jamais imaginei que você saberia de minha existência. Assim, ter algum mal-acabado texto meu sendo lido (e comentado) por você é motivo de enorme alegria!
      E, sim, realmente é um ato heroico (e de resistência, em todos os sentidos) escrever taaaaanto… Acho que aprendi contigo a não ter medo de expor as ideias controlando a quantidade de caracteres.
      Sinta-se à vontade para nos visitar e, inclusive, acrescentar informações que não foram contempladas nos posts, sobre cada canção. Seu conhecimento musical é infinitamente maior que o meu e seria uma honra aprender com seus comentários.
      Grande abraço!

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