24. Oswaldo Montenegro: “Incompatibilidade”

E bate louco, bate criminosamente
O coração mais do que a mente, bate o pé mais do que o corpo poderia
E se você mentalizasse na folia
Sabe lá se não seria a solução prá de manhã pensar melhor
E caso fosse a incompatibilidade entre o corpo e consciência
Iria desaparecer, você não vê
Como o corpo preparado pode ser iluminado
Como a luz de uma fogueira que precisa se manter


Não sou exatamente um fã de Oswaldo Montenegro, pois conheço pouco da obra desse renegado cantor, compositor e (excelente) músico carioca. Há um punhado de canções dele bem conhecidas, com destaque para a linda “Bandolins” – que o bom amigo Stênio “Tung” teve a audácia de incluir em nossas rodinhas de violão –, e sua atuação como intérprete, sobretudo da obra de Chico Buarque, sempre me emocionou.

Mesmo assim, sinto uma enorme dívida para com o cancioneiro de Oswaldo, talvez por (inconscientemente) considerar a injusta pecha de “chato”, que lhe atribuem, como um álibi para investir o tempo e o esforço em outros artistas.

Assim, este post não terá muitas estórias a contar, como em outras ocasiões, nem será redigido com a propriedade de quem conhece, de cabo a rabo, a obra do homenageado. É mais um acerto de contas com uma canção que, conhecida por mim lá atrás, penso merecer uma análise e uma audição mais cuidadosa. Sobretudo porque ela, por muito tempo, se converteu em uma espécie de mantra pessoal que, previamente às noitadas universitárias, advertia para a necessidade de me divertir sim, mas sem excessos.

oswaldo-montenegro.jpg
Oswaldo Montenegro, competente cancionista de uma obra prolífica e ainda carente de uma avaliação mais racional.

“Incompatibilidade” apareceu, pela primeira vez, no disco Oswaldo Montenegro, de 1980. Canção de andamento acelerado, entre o rock e o country (contando, inclusive, com o divertido acompanhamento de um banjo), sua letra é cantada como uma espécie de trava-línguas. A harmonia é simples, baseada no campo de Dó Maior, com uma modulação que a faz alcançar o tom de Ré, a partir da metade da obra.

Fui fisgado por essa peça incomum por volta de 2009, quando participava (mais ativamente) de uma lista de discussão sobre espiritualidade, a Voadores, lotada nos grupos do Yahoo e sobrevivente até hoje. Observe que a letra disserta sobre uma suposta “incompatibilidade entre corpo e consciência”, defendendo radicalmente a tese contrária: não há apenas compatibilidade entre um e outro aspecto do ser, senão uma verdadeira relação de mutualismo, de interdependência, de reciprocidade. Mens sana in corpore sano, e vice-versa.

Assim, não admira que, em algum momento, a obra de Oswaldo viesse a aparecer entre as milhares de mensagens que circulavam na Voadores. Cortesia de um dos moderadores da lista, o psicanalista e filósofo Lázaro Freire, que gentilmente autorizou que eu transcrevesse, aqui, suas considerações congruentes a essa curiosa canção – que, entre coisas, ensina que “Se você dançar a noite inteira não significa dar bobeira / De manhã se alienar ou esquecer / É a busca do supremo equilíbrio, num processo inteligente sua mente / Clarear sem perceber”. Atenção para as sábias palavras do Lázaro:

André Luiz, em No mundo maior, capítulo sobre “Sexo”, diz que através das guerras, descobrimos os mecanismos da paz… E que a guerra é, em uma instância, mecanismo do amor em ação, assim como o sexo, a escravidão e a possessividade, conduzindo pessoas pelos extremos em busca do equilíbrio. É, faz sentido, e com guerras mundiais é que voltamos nossos olhos para a união. Começamos a valorizar a paz e institucionalizá-la. Sempre houve mecanismos bélicos, associações militares. Mas precisamos de bombas atômicas para fazermos o esboço do que um dia pode vir a ser organizações pacíficas de nações.

Dá o que pensar… […]

Há cristais chamados de arco-íris, dentro dos quais podemos observar estes fenômenos coloridos. Todos eles têm fraturas internas. Ou seja, para que um cristal possa emanar luz e depois reflita para sempre a beleza do arco-íris em seu interior, em um momento ele passou por condições adversas, pressão, impacto ou calor, de forma “traumática”.

Dá o que pensar…

O Tao fala em equilíbrio entre tudo. Ou seja, viver só no “bem bom”, pelo menos aqui na Terra, não significa estar no equilíbrio. Bem que o Tarot advertiu… A roda gira. Como diz o Wagner [outro moderador da Voadores], se você está muito triste, não ligue – com certeza tudo é transitório, e vai passar. Mas se você está muito feliz, amado, com tudo dando certo, VALORIZE e viva cada momento como se fosse único – pois também vai passar. O segredo é não se deixar derrubar na baixa, nem parar de valorizar na alta. É através da alternância, altos e baixos, bem e mal, luz e sombras (não confundir com trevas), transcendental e terreno, que chega-se ao MEIO. Como dizia Lao Tsé, quem anda na ponta dos pés não guarda equilíbrio.

Dá o que pensar… […]

Espiritualismo que despreza a matéria é desequilíbrio. Mas claro, materialismo que não dá valor às coisas do espírito consegue ser pior, se é que faz sentido comparar com o desequilíbrio.

Fecho com uma música que resume o que penso, ou melhor, o que SINTO em relação a isso tudo [e eis que ouvimos “Incompatibilidade”].


Tem uma ideia que matuto há tempos e que, tenho certeza, se chegar a ser concretizada, não o será por minhas mãos. Consiste na gravação de um disco de releituras de clássicos da MPB em que essa sabedoria, meio taoísta, meio zen-budista, está ali, sem meias palavras e sem concessões orientalistas baratas.

A banda que gravasse esse disco poderia até, numa faixa ou outra, incluir timbres e sonoridades mais típicos da Ásia. O importante mesmo seria o repertório, que com certeza abrigaria algo do Walter Franco (como “Respire Fundo” ou “Coração Tranquilo”), “Gîtâ” de Raul (obviamente) e outras canções que estarão no blog em breve (ou não tão em breve assim).

Bem, nesse disco, uma versão de “Incompatibilidade”, com um clima meio Hare-Krishna, levada na percussão indiana e ao som de um harmônio, cairia muito bem.

Jogo essas ideias no ar na esperança de que alguém se sensibilize com elas, fazendo esse sonhado disco ser gravado algum dia. Mas quero os créditos, hein!


Em 2015, Montenegro lançou o incrível DVD 3×4, que reúne um punhado de canções (mais de 40!) espalhadas por três blocos diferentes: Festa, Serenata e Blues. “Incompatibilidade” aparece rapidinho em Festa, a gravação mais animada e intimista (registrada no apartamento do cantor), no meio de um animado pot-pourri.

Encontre-a, no vídeo abaixo, entre 8’55” até 9’41”:

5 comentários

  1. Adorei este texto. Curti muito Oswaldo na adolescência e estou resgatando isso hoje. Lembro de muitas músicas ainda, de cor.

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    1. Que bom que gostou, Regianne! Considero o reencontro com canções da adolescência uma forma de autoconhecimento. Este blog, aliás, também serviu para eu me dar essa oportunidade.
      Grato pelo elogio e fique à vontade para conhecer outros posts.
      Abraços

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  2. Conheço profundamente a obra do Oswaldo Montenegro e a considero magnífica. Infelizmente é um artista renegado, como você falou. Sem motivo, no entanto. A qualidade e o nível das músicas é algo absurdo. Oswaldo é um exímio instrumentista, baita compositor e um extraordinário cantor. Merece demais um aprofundamento.

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