114. Kid Abelha e os Abóboras Selvagens: “Nada Tanto Assim”

Só tenho tempo pras manchetes no metrô
E o que acontece na novela
Alguém me conta no corredor
Escolho os filmes que eu não vejo no elevador
Pelas estrelas que eu encontro
Na crítica do leitor
Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa
Mas nada tanto assim


O primeiro disco do Kid Abelha (à época, carregando ainda os Abóboras Selvagens no nome) costuma ser tratado como item quase supérfluo, dentre os clássicos do BRock. Mas tenho à minha frente um volume especial da Super Interessante, intitulado “História do rock brasileiro – anos 80”, que elenca 25 discos essenciais do período, falando o seguinte sobre Seu espião (1984):

Tido como um grupo “menor” em sua época, o Kid Abelha cruzou a década de 80 (e os anos seguintes) só fazendo valorizar sua obra. Seu espião, a estreia do grupo, produzido por Liminha, ganhou contornos antológicos pela quantidade de canções que acabaram grudadas na memória afetiva do brasileiro: “Como Eu Quero”, “Pintura Íntima”, “Nada Tanto Assim”, “Fixação”… Parece até uma coletânea de grandes sucessos, mas era só um grupo de quatro adolescentes cariocas fazendo música para matar o tempo.

Justiça seja feita: apesar de Educação sentimental (1985), segundo álbum do conjunto, trazer um acabamento mais caprichado e um repertório indefectível, Seu espião é uma joia que, a cada ano, parece ganhar relevância.

Pessoalmente, prefiro Educação sentimental e, no próprio repertório de Seu espião, “Alice (Não Me Escreva Aquela Carta De Amor)” é minha canção preferida – e quem me conheceu nos tempos de graduação sabe o motivo! Mas “Nada Tanto Assim”, segunda faixa desse disco de estreia da banda carioca, é certamente mais relevante, por isso a trouxe aqui.

A canção, composta pelo guitarrista Bruno Fortunato e pelo então baixista Leoni, é um pop-rock redondinho, com harmonia no tom de Mi Maior. A letra, no entanto, é entoada pela voz de Paula Toller (ainda buscando um aprimoramento técnico) sobre um revezamento entre o próprio Mi Maior e um deprimido Sol Sustenido Menor.

Ainda, de acordo com o modelo da semiótica da canção, estamos diante de uma peça temática: a melodia é monótona, se alternando entre dois desenhos bastante identificáveis: na região mais grave, o dos versos “Só tenho tempo pras manchetes no metrô / E o que acontece na novela / Alguém me conta no corredor”; e na parte mais alta da tessitura, cantando “Escolho os filmes que eu não vejo no elevador / Pelas estrelas que eu encontro  / Na crítica do leitor”. O refrão apenas repete a constatação: “Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa / Mas nada tanto assim”.

Será que Paulinha e companhia poderiam imaginar que, mais de 30 anos depois, tais versos soariam tão proféticos? Pois observe que estão presentes, na letra aparentemente simples, diversas características da pós-modernidade que, apesar de já integradas ao cotidiano oitentista, surgem exacerbadas nos tempos atuais: a efemeridade, a rápida sucessão de imagens, o máximo de erudição sendo reduzido apenas à cultura de massas, o provincianismo e o simulacro num mesmo verso (“Conheço quase o mundo inteiro por cartão postal”), a superficialidade de um sujeito que não se deixa responsabilizar por nada… sim, está tudo anunciado, de forma pessimista, na (curta) letra de uma obra que, à época, deve ter soado tola.

Que tola, que nada: espertíssima essa letra de Leoni. Gosto, especialmente, como o refrão, sustentado pelos acordes maiores do campo harmônico, mal deixa entrever um fundo niilista: adotar o pessimismo filosófico como referencial implicaria, a essa altura, negar a superficialidade confessada durante toda a canção. Não, o sujeito que canta sequer é capaz disso: sem qualquer desassossego, se rende à constatação de que, afinal, tem muito por que se interessar. “Mas nada tanto assim…”

Faz pensar em nossas vidas…

kid-abelha-e-os-aboboras-selvagens.jpg
Kid Abelha e os Abóboras Selvagens: profecias da pós-modernidade disfarçadas na new-wave de um conjunto (só aparentemente) tolo.

“Nada Tanto Assim” ressurge cheia de punch na versão ao vivo registrada em Multishow ao vivo: Kid Abelha 30 anos (2015), com o conjunto em sua formação clássica (Bruno, Paula e o imprescindível saxofonista George Israel). Definitiva:

4 comentários

  1. A modernidade líquida,conceito cunhado por Zygmunt Bauman,já estava na música do Kid Abelha,não sei se eles se deram conta.

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