330. Leo Jaime e Leoni: “A Fórmula Do Amor II”

Vestindo a fantasia delirante de controle e conquista
Sou só mais um soldado derrotado nas batalhas do amor
A vida não é filme, lembram os versos de uma antiga canção
E as coisas são mais fáceis no Instagram e na televisão


Leoni e Leonardo “Leo” Jaime são dois sobreviventes do BRock, cada um à sua maneira.

Leoni, após sua conturbada saída do Kid Abelha, tentou engatar os Heróis da Resistência (que, quando finalmente desistiram de se apresentar como um RPM lado-B, lançaram um álbum memorável – com um pop puxado para o hard, trazendo o hit “O Que Eu Sempre Quis” e a incrível “Diga Não” – e se dissolveram) e, nos anos 1990, iniciou uma relativamente bem-sucedida carreira solo, arduamente construída a partir do inesperado sucesso de “Garotos II – O Outro Lado”.

Já o cantor goiano, autor de “A Vida Não Presta” e ex-integrante do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, passou mais tempo afastado dos holofotes, retornando ao estrelato às portas dos anos 2010 como apresentador, dançarino e, novamente, cantor.

É bacana vê-los novamente juntos, excursionando sob a jocosa alcunha de Leoni & Leonardo, o que deve trazer um baita sentimento de nostalgia para esses dois nomes consagrados do rock oitentista. Imagino o que deve passar na cabeça de cada um deles quando, no palco, olham para o lado e encontram um companheiro de jornada – com o qual podem não concordar de todo (Leoni pende para a esquerda; Leo Jaime, mais conservador, soa como centrista no atual contexto brasileiro), mas eis novamente ele aí, após tantos anos. E tanta história.

leoni-leo-jaime.jpg
Leoni e Leo Jaime: amizade e canções para além dos anos 1980.

Ao que parece, a relação entre ambos azedou de verdade no início de 1986 – quando Leoni já havia comunicado ao restante do Kid seu projeto de, ao fim daquela excursão, montar o Heróis –, como conta Ricardo Alexandre em Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80 (2ª ed. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2013).

Em fevereiro, durante o festival Cidade Live in Concert, o ainda quarteto [Kid Abelha] tocou pouco antes de Leo Jaime. O ex-miquinho chamou o Kid Abelha para cantar “Fórmula do amor”, que haviam gravado em parceria. Anunciou todo o grupo, menos Leoni. “Senti que Leo tomou o partido da banda e que Paula aproveitou para forçar a mão para que eu saísse logo então”, confessa o baixista, após anos de terapia. Nos bastidores, enfurecido, Leoni foi tirar satisfações com Paula, Leo tentou apartar a confusão, Herbert Vianna saiu para defender a namorada [a própria Paula] e a esposa de Leoni na época, a modelo Fabiana Kherlakian, também entrou no pastelão. Paula desferiu uma pandeirada no rosto do ex-namorado, que no dia seguinte, saiu em peregrinação pelas redações da cidade exibindo seu pequeno hematoma. “Foi uma baixaria que hoje me mata de vergonha”, reconhece o baixista. Quando você faz sucesso, todo mundo diz que você é o máximo. Não é o Kid Abelha que é o máximo: você é o máximo. E, quando não se tem cabeça, e num sucesso tão rápido, o que mais se quer é acreditar nisso” (p. 287-288).

Mas, 30 e poucos anos depois, os cantores e compositores retomam a parceria criativa justamente do ponto onde ela parecia ter se esgotado: com “A Fórmula Do Amor”, faixa que encerrava Educação sentimental (1985), do Kid, e aparecia no lado-A de Sessão da tarde (também de 1985) de Leo Jaime – que, como lembrou Ricardo Alexandre no fragmento acima, foi registrada com participação da própria banda de Leoni e Paula:

Neste 2019, a canção é lembrada como uma sequência, “A Fórmula Do Amor, II”, gravada como um single divulgado nas plataformas digitais.

Na oitentista primeira parte da obra imperava uma ingenuidade quase adolescente, mas totalmente ajustada ao conceito de Educação sentimental, de cuja faixa-título já falamos aqui. Assim, “Educação Sentimental”, por exemplo, trazia um sujeito obcecado por aprender a arte da conquista, de forma a superar sua forma desajeitada de lidar com as garotas. O mesmo loser apareceria em outras canções do disco, como o paranoico teórico de uma “Conspiração Internacional”, ou um mesquinho mercador afetivo em “Amor Por Retribuição”.

“A Fórmula Do Amor” era só mais um tijolo no muro, rindo-se desse personagem que – antecipando o imediatismo da Geração Z (e já falamos aqui sobre a argúcia do Kid Abelha em radiografar as marcas da pós-modernidade) – dirige seu /querer/ para os atalhos, as soluções fáceis ou, nos termos de hoje, os tutoriais.

Ainda mais vibrante que a gravação de Leo Jaime, a continuação “A Fórmula Do Amor II” dá nova voz ao sujeito da obra original, que parece já ter apanhado muito da vida. “Sou só mais um soldado derrotado nas batalhas do amor”, lembra ele, amargurado, logo nos versos iniciais.

Gosto da forma resignada como esse balanço, a tal altura do campeonato, recupera expressões cristalizadas pela “A Fórmula Do Amor” original: “Os livros de autoajuda não foram totalmente inúteis / A fogueira foi bonita e iluminou os jantares a dois / Tanto texto decorado, gesto exato e rosto em contraluz / Foi só desilusão, eu sempre tropecei no amor”. Aliás, é muito simbólico como os tais livros – aquela literatura sobre educação sentimental – reapareçam, então, como combustível de uma fogueira a acalentar um jantar a dois. É, parece que Leoni e Leo estão mesmo dispostos a deixar o passado para trás!

E, no que seria o refrão, novos achados de grande sabedoria, encerrando dignamente a narrativa iniciada no disco de 1985 do Kid (ou talvez antes, em Seu espião, de 1984): “Tanto tempo eu procurei / Mas nunca descobri a receita / O amor só faz o que ele quer / Quando entra em cena lá se vão as certezas / Tanta história perdida / Tanta mágoa e rancor / Tanto afeto suspenso / Atrás da fórmula do amor / Atrás da fórmula”.

(Não sei se foi intencional ou não, mas é curioso como a obra oitentista fala em “A fórmula / A fórmula do amor”, e a nova inverte as locuções, “Atrás da fórmula do amor / Atrás da fórmula” – um espelho perfeito).

Além de demonstrar a vitalidade dos dois compositores, “A Fórmula Do Amor II” comprova, mais uma vez, a habilidade do Kid Abelha (e de Leoni, em especial, seu principal compositor nos primeiros álbuns) em identificar temas que, de tão internamente coerentes e externamente universais, mereceriam ser repisados em obras para além de Educação sentimental.

Com efeito, o tema da educação sentimental exigiu não apenas a demarcação explícita de seu caráter conceitual, mas também que o álbum mais clássico do Kid tivesse de se expandir para outros tempos e espaços. Tento representar diagramaticamente isso, destacando os pares de canções que ressaltam o alinhamento temático que unifica Educação sentimental e o expande para as obras de Leoni, solo ou com Leo:

educacao-sentimental-expandido.jpg

A nova parceria de Leo Jaime e Leoni, mais do que anunciar a turnê que reúne no palco duas almas irmanadas na criação cancional, reafirma a perenidade das canções daquele disquinho de 1985 aparentemente bobo, mas hoje reconhecido como obra obrigatória.

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