315. Nara Leão: “Sina De Caboclo”

Mas plantar pra dividir
Não faço mais isso, não.
Eu sou um pobre caboclo,
Ganho a vida na enxada.
O que eu colho é dividido
Com quem não planta nada.


No post de ontem, mencionei novamente um elemento que tem movido – menos esporadicamente do que pareceria provável – o blog, por vezes, precipitando a redação de determinados posts ou, então, fazendo eu declinar da ideia de abordar uma dada canção, em favor de alguma outra do mesmo cancionista. Esse elemento é a coincidência.

Os místicos alegam que ela não existe: laços invisíveis coordenam todo o universo. Nessa harpa cósmica, tocar num fio pode fazer ressoar um outro. Não existe ação à distância, existem efetivamente ligações (ocultas). Por isso, já diziam os alquimistas que o que está em cima é como o que está embaixo, e vice-versa.

Isso tem nome: simpatia, que alguns traduzem como “sentir junto”. Eu já prefiro ler o sufixo pathos não como “sentimento”, mas como “sofrimento” – e não por inclinação à tragédia, mas porque o verbo sofrer também se refere à experiência e a simpatia se converte, assim, no “experimentar junto”.

Se não existem coincidências no cosmos, mas ligações que nos escapam, penso que o mesmo aconteça na política. Aliás, penso, não: é um dito popular. E explica muita coisa, não é mesmo?

Pois mais uma coincidência política, com certo teor dramático, invadiu meu domingo, e cá estou, no blog, alterando os planos para o post de hoje.

Com efeito, esperava a ocasião de escrever sobre “Sina De Caboclo”, composição de João do Vale (que merecia um espaço aqui no blog, e sequer foi mencionado!) e Jocastro Bezerra de Aquino, interpretada por Nara Leão no clássico Opinião de Nara (1964). A obra tem como enunciador um camponês que vive a sina de ser espoliado, mas consegue elaborar um discurso (racionalíssimo) em prol da reforma agrária, demonstrando por A + B que a democratização da terra gera uma cadeia de consumo e produção que beneficiaria a todos: pequenos produtores, população em geral e (talvez principalmente) os próprios empresários. Afinal, o programa da reforma agrária não é exatamente uma reivindicação socialista: logo da queda do Antigo Regime, com a Revolução Francesa, os bens da nobreza e da Igreja foram confiscados e distribuídos à classe emergente e (então) revolucionária, a burguesia. Um capitalista consequente e minimamente esclarecido deveria abraçar a ideia, e não combatê-la.

Pois eu andava com o tema na cabeça nos últimos dias – e o post sobre “Caminhos Do Coração”, há poucos dias, entregava algumas pistas de que vinha refletindo sobre a situação do campo – e, para entrar no clima, revisitei O que é reforma agrária, de José Eli da Veiga (São Paulo: Brasiliense, 1984). Andei lendo o pequeno, mas esclarecedor livrinho, e tinha deixado o marcador na p. 62, que vinha falando sobre a situação agrária da Bolívia, desde meados do século XX:

Em 1963, o Exército foi derrotado por um levante armado dos camponeses auxiliado pelos carabineros. O presidente eleito no ano anterior – Paz Estensoro – pôde assim ser empossado e um forte programa de sindicalização organiza, em poucos meses, 200 mil lavradores. No início de 1953, os novos sindicatos orientam seus filiados para que ocupem os latifúndios e, em agosto, quando foi promulgada a lei de reforma agrária, boa parte das terras já estavam distribuídas. A partir da decisão oficial, uma ampla e rápida reforma atinge o conjunto do país, sem que houvesse tempo para a reconstituição das forças conservadoras. Um total de 110 mil famílias puderam se estabelecer gratuitamente numa área superior a 3,6 milhões de hectares, sem que os proprietários fossem realmente indenizados nos termos da lei.

A atribulada história política da Bolívia acabou não permitindo que a reforma prosseguisse. Em 1966, menos da metade dos pedidos de terra apresentados pelos camponeses haviam sido atendidos e a maioria dos beneficiários ainda não possuía títulos legais de propriedade. O incrível número de golpes de Estado registrados nas úlimas décadas mostra a incapacidade das classes dominantes bolivianas em afirmar sua dominação sobre a sociedade sem que, por outro lado, as forças populares – mineiros e camponeses – consigam erigir-se em alternativa histórica ao poder (p. 61-62).

Pois na noite de ontem, essas mesmas forças conservadoras – que, nos últimos dias, vinham protestando e realizando inadmissíveis linxamentos públicos de personalidades da sociedade política – conseguiram praticamente expulsar o presidente Evo Morales do país. E soma-se, assim, mais um golpe na conturbada história boliviana.

A expectativa é que, justamente os caboclos de lá (o povo indígena e seus descendentes, maioria nas províncias periféricas e, claro, na zona rural) faça valer sua sina de desafortunados, mas também de aguerridos.

Vêm aí tempos agitados para a América Latina.

nara-leao.jpeg
Nara Leão: cantando a sina do trabalhador do campo na nascente música popular brasileira.

João do Vale é um desses trabalhadores braçais que, forjando na prática social uma enorme consciência de classe, compôs obras que traduziram as aspirações da classe trabalhadora brasileira. Sobre “Sina De Caboclo”, um ouvinte do YouTube registrou como comentário uma pequena anedota envolvendo a canção e seu compositor (clique para aumentar a imagem):

comentario-sina-de-caboclo

Não duvido que tenha acontecido!

A interpretação que motivou o comentário, extraída de João do Vale – o poeta do povo (1965) pode ser escutada abaixo:

Outra composição famosa do maranhense é “Carcará”, que foi interpretada magistralmente por Maria Bethânia no espetáculo músico-teatral Opinião. Bethânia, substituindo Nara no show-peça estrelado com o próprio João do Vale, mais Zé Kéti (sendo dele o próprio samba “Opinião”, que já trouxemos ao blog), faria uma interpretação definitiva, incorporando uma verdadeira ave da rapina ao cantar a obra. Muitos anos depois, a cantora, revelada para o Brasil justamente com essa performance, cantaria “Sina De Caboclo” como uma introdução a “Opinião”, no show Noite luzidia (de 2001, mas lançado como DVD em 2013). Acabando “Opinião”, vem outra famosa canção que, novamente, chama a atenção por continuar a cadeia de coincidências mencionada no início do post… Confira:

À época do Opinião e das interpretações de Nara e de João do Vale, a cantora Zélia Barbosa, em seu único álbum Brasil – Sertão e Favelas (1967), lançado inicialmente na França, registrou também “Sina De Caboclo”:

3 comentários

  1. É,parece que há mesmo um fio-invisível ligando tudo e todos,e esse ”fio-invisível” pode ser as leis de Deus em ação.

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