8. Belchior: “Alucinação”

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais


Temos hoje mais uma canção sobre a qual é difícil falar algo novo. No entanto, “Alucinação”, desse cearense que faz uma falta danada, Antônio Carlos Belchior, traz um texto que  faz sentido sublinhar, mais do que nunca.

“Alucinação” abre o  lado-b do disco homônimo de 1976. A faixa é uma balada roqueira, conduzida ao violão (que explora quase todo o campo harmônico de Sol Maior), mas com excelentes intervenções do baixo, da bateria, da guitarra e dos teclados. Os segundos finais da canção releem os versos introdutórios, mas sob uma etérea cama de teclados, encerrando a faixa com um tenso, asseverativo e melancólico acorde de Mi Menor (que demarca também outras passagens da canção).

Portanto, harmonicamente, não há mistérios. Como disse, os tesouros estão mesmo na letra, que é pessoalíssima: o próprio Belchior é o sujeito enunciador. De certa forma, “Alucinação” é uma canção metalinguística. O cantor, ao começar com a declaração de não está interessado “Em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia / […] Nem em tinta pro meu rosto / Ou oba oba, ou melodia”, parece estar demarcando o universo temático de suas próprias composições. Ao fazer isso, estabelece seu território como aquele da realidade nua e crua, e não das viagens idealistas.

Essa carta de intenções (praticamente um manifesto) tem endereço certo: são os tropicalistas e suas fantasias teóricas, o misticismo de gente como Raul Seixas (e talvez Walter Franco), o oba-oba roqueiro e fútil do Made in Brazil, as psicodelias dos Mutantes, os espalhafatosos Secos e Molhados (vide a referência a “tinta pro meu rosto” e a sutil cutucada nos autores de “Delírio”, de 1974: “E meu delírio / É a experiência / Com coisas reais”), etc. Enfim, esse povo que não enfrentou as mesmas adversidades que o retirante cearense narra em faixas como “Galos, Noites E Quintais”, “Fotografia 3×4” e “Notícia De Terra Civilizada”.

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Belchior, apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior.

Não, “coisas do Oriente” ou “romances astrais” não interessam a esse único e curioso indivíduo da música brasileira. Belchior quer tratar das pessoas de carne osso, os desvalidos, os marginalizados, que são enumerados numa longa lista a partir da terceira estrofe da canção. Tentei caracterizar todos esses grupos, representados por diversos personagens que desfilam pela paisagem urbana:

personagens

grupo social

preto, pobre, os humilhados do parque, pessoas dessas capitais, doze jovens coloridos (negros) periféricos
mulher sozinha (a violência da noite)/garotas (dentro da noite) mulher(es) em risco/na prostituição
um rapaz delicado e alegre que canta e requebra “as gay”
um estudante os movimentos sociais
blue jeans e motocicletas a juventude
meu corpo que cai do oitava andar os que padecem de doenças psíquicas, loucos e/ou deprimidos

Encerrando a lista, uma cena comum nos tempos de repressão: doze jovens “coloridos” são abordados por dois policiais, que estão apenas “cumprindo seu duro dever”. E como servidores do Estado, suas ações se desenrolam paralelamente nas esferas privada e pública. Ao cumprir seu “duro” dever (em outras versões da canção, Belchior fala em “maldito dever”), eles estão apenas “defendendo o seu amor / E nossa vida”. Mas é curiosa essa presença do pronome “seu”, como se os agentes da repressão não estivessem a serviço de um ideal solidário e universal de amor. Estão defendendo o seu amor, contraposto à nossa vida. Trata-se, assim, de um eros egoísta, subjetivo e estranho a interesses mais amplos e nobres. Interesses pelos quais, justamente, a voz da canção dirige suas preferências, na resolução do manifesto: “Amar e mudar as coisas / Amar e mudar as coisas / Me interessa mais”.


“Alucinação” foi relida pelo próprio Belchior em várias ocasiões. Existe uma versão elétrica, ao vivo, que reconstroi a balada roqueira como um divertido reggae, mas que atenua a potência dos versos do cantor. Além dessa, podem ser encontradas por aí duas versões acústicas, levadas a voz e violão. Recomendo, dessas, a singela versão do disco Um concerto a palo seco (1999).

Existem duas versões, reverentes ao arranjo original, de duas excelentes cantoras. Amelinha relê a faixa em seu disco-tributo De primeira grandeza: as canções de Belchior (2017). Mas minha versão preferida é mesmo a da surpreendente Daíra Sabóia, que também gravou um lindo tributo no disco Amar e mudar as coisas (2016). Na minha opinião, Daíra, com sua linda voz e suas atuações emocionadas, é a melhor intérprete de Belchior que já apareceu. Confira:

Não podemos nos esquecer da versão dos Engenheiros do Hawaii, registrada no disco Minuano (1997), com um arranjo bastante diferente, e algumas limadas na letra. A melancolia da gravação original é substituída pelo andamento acelerado, sob batidas eletrônicas, e que colocam em destaque os versos “Amar e mudar as coisas”, convertidos num eficiente e marcante refrão. Outra coisa bacana é o fato de essa releitura ser iniciada com os vocais sobre um fundo de strings no teclado, prestando tributo à coda da gravação original. “Alucinação” foi um dos grandes hits dessa formação dos Engenheiros, e seu videoclipe já é um clássico da mídia visual da banda. Assista:

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